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O Rio Grande do Sul eas mudanças climáticas

Editorial - Dulce Tupy

Sou filha de gaucho com parte da família morando em Porto Alegre e tenho uma lembrança afetiva muito forte com o Rio Grande do Sul, onde meu pai viveu até seus 16 anos, antes de vir morar no Rio de Janeiro, vindo a conhecer minha mãe, carioca da gema. Depois de cursarem a Faculdade Nacional de Direito, casaram-se e foram morar em São Paulo. Em Cananéia, antiga cidade litorânea, onde papai era delegado e minha mãe ainda sem filhas se elegeu vereadora, se encantaram com a natureza e o litoral paulista tendo trabalho também em Ubatuba e São Sebastião, de onde saímos – meus pais, eu e minha irmã – de navio para aportar no Rio de Janeiro.

Na adolescência, eu lia fervorosamente o Diário de Notícias, o jornal favorito de minha avó, onde morávamos na Tijuca. Assim, eu acompanhava as crônicas do Nelson Rodrigues até o dia em que um temporal avassalador destruiu o prédio onde morava a sua família, em Laranjeiras. Essa enchente que também atingiu a nossa rua, na Tijuca, e as crônicas de Nelson Rodrigues sobre a morte de seu familiares na enchente, carregadas de indignação, moldaram minha formação humanística e apontaram meu caminho no jornalismo que exerço há mais de 50 anos.

EVENTOS EXTREMOS

Assim, fui voluntária ajudar os desabrigados num colégio que se transformou em abrigo, recebendo famílias inteiras expulsas pela calamidade do Morro da Formiga e outras localidades do entorno da Rua Conde de Bonfim. Para mim, nunca mais a Tijuca foi a mesma. No auge das chuvas de verão, no Rio, eu vi como somos frágeis, diante dos eventos climáticos. Claro que ainda não tínhamos a dimensão que temos hoje, com as informações constatantes que temos agora, principalmente depois das grandes Conferências Ambientais promovidas pela ONU (Organização das Nações Unidas), tendo como referência a famosa Rio 92 que escancarou a pauta ambiental e a necessidade de esclarecer cada vez mais as comunidades, os países, as famílias…

O tema das mudanças climáticas foi se consolidanto em outras conferências ambientais, sempre focando na necessidade de nos prepararmos para os eventos extremos climáticos observados pelos cientistas e pesquisadores nacionais e mundiais. Aqui mesmo, em Saquarema, tivemos dois ou mais exemplos desses eventos extremos que nos abalaram: o ciclone extra-tropical que avançou do mar na direção da Praia de Barra Nova e destruiu casas, telhados, caixas d’águas e muros, até a Praia da Vila. Um barco voou e ficou agarrado num poste… tornando-se símbolo desse desastre que arrasou principalmente as casas dos moradores do entorno da Lagoa das Marrecas.

DESASTRE AMBIENTAL

Voltando ao Rio Grande do Sul, que vem sofrendo com a maior enchente de sua história. Temos acompanhado pela mídia, o desastre ambiental anunciado mais uma vez. Na verdade, ninguém acredita muito nos danos que eles acontecem; alguns por falta de opção de moradia acabam construindo em locais de risco de enchentes e desabamentos. Prédios históricos de Porto Alegre, como o antigo Mercado, estão definitivamente marcados pela inundação.

Centenas de pessoas estão mortas ou desaparecidas, além dos feridos resgatados pela forte coalizão que se formou de voluntários e técnicos, bombeiros e Defesa Civil, forças armadas e religiosos, atletas e artistas, entre outros. Aqui estamos assistindo o que é solidariedade, como aquela que eu vivi aos 18 anos na Tijuca e que marcou profundamente o escritor e cronista Nelson Rodrigues que perdeu a família em Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Foram esses e outros eventos extremos que me transformaram para sempre.

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