Entra governo, sai governo e desigualdade só aumenta

Nem o tucanato, nem o lulopetismo conseguiram mudar este quadro de desigualdade. O bolsonarismo, tudo indica, muito menos conseguirá mudar essa situação

A última Pesquisa por Amostra de Domicílio Contínua (Pnadc) do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), referente ao período de 2017 a 2018, reflete um quadro tecnicamente considerado como “indigente”, diante da má distribuição de renda no Brasil. Bem abrangente, por considerar todas as fontes de rendimento, a sondagem confirma a posição humilhante do Brasil como um dos 15 países mais desiguais do mundo.
Em um ano, de 2017 a 2018, segundo a pesquisa, o rendimento médio dos mais ricos subiu de R$ 25.593,00 para R$ 27.744,00, num crescimento de 8,4% – nada mau num período de virtual estagnação econômica e desemprego alto. É definido como um mundo paralelo o dessa faixa da população.

Já no universo de renda mais baixa, abrangendo os 5% mais pobres, a remuneração encolheu de R$ 158,00 para R$ 153,00, o equivalente a 3,2%. Quando a conjuntura é auspiciosa, todos ganham, mas o chamado “topo da pirâmide social e econômica” sempre ganha mais. Ou seja, no Brasil os ricos estão ficando cada vez mais ricos enquanto os pobres cada vez mais pobres.

INFORMALIDADE

Desde 2014, quando começou a crise econômica, 4,5 milhões de brasileiros passaram a integrar a extrema pobreza: o país já tem hoje 13,5 milhões de pessoas vivendo na miséria, com menos de R$ 145,00 por mês. Não é apenas o quadro atual que preocupa, mas também as projeções para os próximos anos.

Segundo cálculos do economista Marcelo Neri, diretor da Fundação Getúlio Vargas, se o Brasil crescer 2,5% ao ano, sem que a desigualdade aumente, em 2030 o país voltará ao mesmo patamar de extrema pobreza registrado em 2014. Naquele ano, o país tinha 9 milhões de habitantes nessas condições.

Porém, os números estão mostrando que a desigualdade no Brasil vem se acentuando. Um dos motivos é o aumento desenfreado da informalidade. Nem mesmo as políticas públicas do tucanato e do lulopetismo voltadas para esta população de miseráveis, como o Bolsa Família, estão conseguindo mudar o quadro. Os R$ 89,00 mensais (por pessoa) pagos pelo programa estão abaixo do valor que delimita a pobreza extrema.

PRESSÃO SOCIAL

É inadiável refletir sobre o aumento da desigualdade. Os números indicam o agravamento de uma situação que já era das mais complexas. A desigualdade está se transformando em condicionante política relevante para todos, como mostram não só os indicadores, mas também pressões sociais como recentemente no Chile, quando um simples aumento na tarifa de transportes deu origem a uma convulsão social não vista no país há décadas!
São os mesmos problemas que tivemos aqui, a partir das manifestações de 2013, também ocasionadas por um aumento no preço dos transportes públicos. Foi uma faísca desencadeando manifestações das insatisfações latentes da população. Essa é uma situação social comum ao mundo atual.

Com o fortalecimento do “capitalismo de Estado”, comandado pela China, a relação direta entre democracia e capitalismo já não é mais uma variável tão absoluta quanto parecia nos anos 80 e 90 do século passado. A democracia burguesa está sendo posta em xeque, entre outros fatores, pela desigualdade econômica exacerbada em países como o nosso. Apenas 20% dos latino-americanos acreditam que seus países estão progredindo, o que leva ao aumento do número de cidadãos que se declaram indiferentes ao tipo de regime que governa seus países, o principal motivo que alimenta o surgimento de governo populistas.

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Sobre o autor

Silênio Vignoli é editor adjunto do jornal O Saquá.