Um presidente que se elegeu fácil para uma missão difícil

O general Santos Cruz (Foto: Agencia Brasil)

O novo presidente da República, um capitão reformado do Exército, vive repetindo que o Brasil é “ingovernável”, sem os “conchavos políticos” devidos ao Congresso e às “corporações”. Isso faz parte da degastada decisão do presidente de compartilhar, nas redes sociais, sustentando essa tese completamente improcedente. O paralelo com Jânio Quadros foi instantâneo, um populista que renunciou ao cargo de presidente porque não havia conseguido fazer o que desejava, devido a forças “terríveis”. Mas se já não funcionou em 1961, o que dirá agora, quando as instituições republicanas apresentam mais musculatura. O Brasil não é ingovernável. Os que se elegem para tal é que são incompetentes.

DESIDEOLOGIZAR

A cada dia mais, o capitão reformado dá sinais das dificuldades que enfrenta para governar o país, principalmente porque aida não esqueceu o quartel e nem desceu do palanque. O presidente também mostra limitações na tarefa de se comunicar não apenas no sentido técnico, mas, sobretudo, no pessoal. No técnico, a oscilação pendular, característica de sua gestão na presidência, acaba favorecendo o bom senso do ministro general Santos Cruz, da Secretaria de Governo da Presidência da República, que faz a apologia de uma comunicação do capitão reformado sem o pernicioso viés ideológico, mas aberta a todos.

O presidente precisa também abandonar a agenda de extrema direita com a qual seu governo incentiva os chamados “milicianos digitais”, que ajudaram a elegê-lo, mas não trazem qualquer resultado prático e positivo para o país através do seu governo. Vide a paralisia em que se encontra uma pasta estratégica tão importante como a Educação, após ser entregue por Bolsonaro aos radicais de direita. O presidente tem que ligar o “desconfiômetro”, ou botar uma nova bateria, para perceber que os extremos, à direita e à esquerda, são minoritários e, tanto quando isso, que com eles é impossível executar políticas públicas sem crises.

SUPERFICIALIDADE

Durante 28 anos em que foi parlamentar, Bolsonaro nunca presidiu uma Comissão, não foi relator de qualquer projeto, nunca liderou grupo algum. Ele jamais se interessava pelas matérias que passavam pela Câmara, concentrando-se apenas em questões de sue nicho. Sua preocupação restringia-se à defesa dos interesses da corporação dos militares, o que acabou lhe valendo a branda punição de uma reserva remunerada, absolvido que foi pela Justiça Militar com “voto de Minerva”. Com esse currículo, ele chegou à presidência da República. Hoje, não entende nem os projetos que ele mesmo envia ao Congresso, como se depreende das declarações que faz a respeito.
A constatação de que o capitão reformado não consegue coerência entre o que fala e o que faz é possível notar nos pequenos detalhes. Diariamente, Bolsonaro diz algo que contraria o espírito dos projetos que seu próprio governo defende ou contradiz o que havia dito pouco antes. De manhã, afirma que a “classe política é o grande problema do país”. À tarde, elogia essa classe política, tendo a coragem de dizer que “ele faz parte dela”. Bolsonaro viaja por qualquer tema com a mesma superficialidade que demonstrava quando exercia seus mandatos de deputado. Afinal de contas, por que, ele mesmo, seria um presidente diferente do parlamentar que foi?

O fato é que, em apenas cinco meses de governo, o presidente Bolsonaro experimentou uma nítida linha de desgaste. Segundo as pesquisas, há mais pessoas achando que sua administração é ruim ou péssima do que avaliando que é boa ou ótima. Desde a redemocratização, Bolsonaro é o presidente cuja popularidade caiu mais rapidamente no primeiro mandato. Realmente, esses primeiros meses de Bolsonaro no governo são os mais conturbados de quantos já vivemos.

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Sobre o autor

Silênio Vignoli é editor adjunto do jornal O Saquá.