O capitão chegou, mas é preciso descer do palanque

A primeira dama Michele, o presidente Bolsonaro, já com a faixa presidencial, e o ex-presidente Temer no parlatório do Palácio do Planalto em Brasília (Foto: Agência Brasil)

Silênio Vignoli

Às vésperas da posse, o capitão Bolsonaro resolveu falar sobre educação e disse que o Brasil tem “as piores condições” nos rankings mundiais de aprendizagem. O novo presidente acertou no problema, mas errou na solução porque em vez de propor medidas concretas, prometeu “combater o lixo marxista que se instalou nas instituições de ensino”. É importante destacar que Bolsonaro apostou na radicalização ideológica para se eleger. A estratégia deu certo e uma onda conservadora o empurrou até a rampa do Planalto para a instalação de seu quartel-general. Está se abrindo uma nova etapa na história do país. O capitão chegou, assinou o termo de posse e recebeu a faixa presidencial. Agora só está faltando descer do palanque para governar. Dilma só desceu com o impeachment.

CONFINAMENTO

Um ponto destoante na solenidade de posse do capitão Bolsonaro foi o tratamento dispensado à imprensa brasileira e estrangeira credenciada para cobrir o evento. Os cuidados com a segurança do presidente eram necessários. Mas isso só foi usado como pretexto para cercear o trabalho da imprensa. Colegas que estiveram em coberturas anteriores de posses em Brasília, desde a do presidente João Figueiredo, jamais se depararam com tamanhos absurdos, como o de exigir que jornalistas chegassem até 7 horas antes do evento para ficarem condenados, enjaulados em cercados.
O capitão Bolsonaro discursou frisando que uma de suas prioridades é “proteger e revigorar a democracia brasileira’’. Isso é animador, principalmente vindo de quem, num passado recente, elogiou os regimes de força. Se Bolsonaro não sabe, é possível que sim, por sua formação em caserna, a democracia pressupõe uma imprensa livre e atuante. Que os excessos no dia da posse não sejam o prenúncio de uma relação autoritária, mas apenas um erro a ser corrigido.

VOLUNTARISMO

Empossado, o capitão Bolsonaro passa a ser presidente do primeiro governo de direita que se instala no país desde 1994, quando a versão brasileira de social-democracia europeia chegou ao poder, com Fernando Henrique Cardoso. Foram 22 anos de governos de esquerda – ou centro-esquerda – responsáveis, segundo o superminsitro da Economia Paulo Guedes, pelo nosso crescimento econômico medíocre. Anteriormente, houve a malsucedida experiência de Fernando Collor, um populista de direita como Bolsonaro, que derrotou a esquerda como Bolsonaro.
O voluntarismo de ambos é característica que, antes como agora, define uma maneira de governar que pode levar a um isolamento político perigoso, se quiser ser sustentado pelo amplo apoio popular que hoje detém. Jânio Quadros renunciou, achando que a grande maioria do povo que votou nele o levaria de volta ao poder. Lula, com 80% de aprovação quando deixou o governo, pensava que esse povo impediria que ele fosse preso. Está na cadeia há quase 1 ano. Collor chamou o povo para defendê-lo nas ruas, com as cores verde amarelo, e foi derrotado por uma avalanche de pessoas de luto, em trajes pretos, pelas ruas de todo o país.

HETEROGENEIDADE

O governo do capitão Bolsonaro que tomou posse é uma grande frente heterogênea, composta por militares, liberais e evangélicos. O primeiro desafio será articular as agendas. Para dar certo, essa mistura precisará cultivar uma dificílima unidade interna e identificação de um foco comum, se isso for possível. Atos de Bolsonaro o mostram como um espelho de Lula, alimentando essa rivalidade propositalmente que foi muito útil na eleição do capitão. A política externa Sul-Sul, entre países do Atlântico Sul (América do Sul e África), implantada pelos governos petistas para compensar a dificuldade de instalar o projeto Lula internamente, será substituída agora por outra, ligada umbilicalmente aos Estados Unidos (Norte-Sul) numa explosiva mistura de Bolsonaro com Trump, que ninguém sabe no que isso vai dar, nem como vai terminar.

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Sobre o autor

Silênio Vignoli é editor adjunto do jornal O Saquá.