Carnaval, uma questão de cultura, paixão e fé

Editorial - Dulce Tupy

Carnaval mexe comigo. Desde criança, na Tijuca, no Rio, entre os morros do Salgueiro, da Formiga, do Borel, da Casa Branca e do Andaraí, aprendi a gostar do carnaval. Minha avó se fantasiava e nós também, meus pais, vizinhos, adultos e crianças. Saíamos na rua, brincando, e também íamos à Praça Saens Peña, assistir o desfile da escola de samba Acadêmicos do Salgueiro que se apresentava para a comunidade, logo depois do desfile oficial.

Era uma visão fantástica, do outro mundo! O brilho das fantasias, a peruca de Chica da Silva, o som da cuíca na bateria (mais tarde chamada de a “furiosa”), tudo, enfim, era magnífico. Foi assim que nasceu o samba dentro de mim. Antes eu já gostava dos sambas que ouvia no rádio e os meus pais cantavam em casa. Mais tarde, ouvia em discos 78 rotações, bem antes de existirem os LPs. E havia o samba na cozinha, na voz encantadora de uma empregada que me ensinou os primeiros passos do samba, a ginga, o requebrado, o jogo de pernas e pés.

Samba é quase uma religião! Vai penetrando na cabeça, no corpo, na alma. Eu adorava ver também o desfile da Império da Tijuca, na rua Espírito Santo. Até que vi pela primeira vez o desfile oficial, na Av. Presidente Vargas, levada por um radialista que conseguiu um lugar num camarote, onde assisti maravilhada a passagem da Mangueira. Quando fui para meu auto-exílio em São Paulo, em plena ditadura, senti saudade do samba, mais que saudade: banzo. Então descobri que não podia viver sem o samba, mesmo que fosse o samba paulista, pelo qual eu ainda nutria algum preconceito.

Samba e carnaval

Na avalanche daqueles dias, conheci os eternos Adoniran Barbosa e Paulo Vanzolini; visitei a quadra da Vai-Vai, preto e branca, espremida entre prédios e também a verde e branca, da Casa Verde, bairro pontuado pelo sotaque italiano. Logo encontrei o bater profundo dos tambores rurais. Acabei na USP (Universidade de São Paulo). De lá fui direto para a Bahia, carnaval de Salvador, trio elétrico, capoeira e afoxé.

De volta ao Rio, ganhei uma bolsa de estudo num concurso da Funarte (Fundação Nacional de Arte), para pesquisar os chamados “Carnavais de Guerra”, nos anos 40, governo Getúlio Vargas. Fui fundo nos arquivos do MIS (Museu da Imagem e do Som), no Arquivo Nacional, em bibliotecas e principalmente nas quadras das escolas de samba. Quando foi publicado meu livro Carnavais de Guerra, o nacionalismo no samba, em 1985, eu já era fiel ao samba, tinha ido à Africa, em 1980 e 81, e feito uma exposição – Carnaval da Vitória , Gente de Angola – no Rio, Brasília, São Paulo e Belo Horizonte.

Foi quando virei “julgadora” oficial do Desfile das Escolas de Samba do Grupo Especial, a convite da Riotur e da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa). Hoje, em Saquarema há mais de 25 anos, sinto o carnaval, espaço natural do samba, na sua popular criatividade, como uma fragância que se espalha ao vento. O carnaval embriaga por onde passa.

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Sobre o autor

Dulce Tupy é editora do jornal O Saquá e da Tupy Comunicações.