Ivan Cavalcanti Proença

O capitão perseguido pela ditadura que virou professor e hoje mora no Flamengo, no Rio,trabalha no Lago do Paraíso, em Bacaxá, Saquarema, onde escreve seus livros

Ivan e Isis Proença felizes em casa no Lago do Paraíso (Foto: Edmilson Soares)

Ivan e Isis Proença felizes em casa no Lago do Paraíso (Foto: Edmilson Soares)

 

O professor Ivan Cavalcanti Proença é morador do Condomínio Lago do Paraíso, em Bacaxá, onde escreve livros, quando não está no Rio, no Flamengo, onde mantém sua Ofi cina Literária, a mais antiga do país em funcionamento. Frequentador de Saquarema, desde o final dos anos 60, chegou a ser secretário municipal de Cultura, por um curto período. Aqui teve a oportunidade de conhecer o presente e o passado da cidade, a história dos pescadores e dos quilombos, os conflitos entre famílias e disputas políticas. Professor de cultura brasileira da Facha (Faculdade de Comunicação), mestre e doutor em literatura, autor de vários livros de literatura, folclore, música e cultura popular, Ivan foi perseguido após ter sido preso em 1964, quando era capitão do exército. Contemporâneo do poeta, escritor e crítico de arte Walmir Ayala, que dá nome à Casa de Cultura de Saquarema, Ivan é testemunha do tempo em que se vivia o lirismo dos sambas cantados pelo Bloco Unidos de Bacaxá, puxados por Norma Colocci, da casa de shows Pedacinho do Céu. Em seu depoimento à Comissão da Verdade, no Rio, como também nesta entrevista, deu um depoimento marcante, com voz de comando de militar e emoção de artista.

O Saquá – Como você veio para Saquarema?

Ivan – Vim como turista; comprei um terreno e fui construindo. Hoje passo metade da semana aqui e outra no Rio. Escrevo e leio aqui, porque tem mais sossego, desde 1974.

O Saquá – A biblioteca que você trouxe para cá deve ser a maior na cidade…

Ivan – Os livros encadernados foram do meu pai e o restante são meus. Fui comprando para dar aulas, para exercer melhor a profissão de professor. Doei alguns para a biblioteca da cidade, para algumas escolas públicas e até para o Colégio Washington Luiz. O livro precisa aparecer mais em Saquarema.

O Saquá – Você foi um cadete formado na Academia Militar de Agulhas Negras, em Resende, e fez carreira militar.

Ivan – Fiz Colégio Militar no Rio e depois fui para a AMAN, onde me tornei oficial. E era do Regimento Dragões da Independência. Em 64, eu era capitão e estava para ser promovido a major, quando ocorreu o golpe militar e civil, inclusive este é o título de um de meus livros, porque o golpe teve colaboração de civis. Mas antes de ocorrer o golpe, eu já estudava muito, gostava de dar aulas, inclusive para militares, de português e inglês, para colegas que iam fazer Estado Maior. Eu já tinha convívio com sala de aula. Mas tinha vocação militar também.

O Saquá – Aí aconteceu um incidente que contrariou os golpistas…

Ivan – Há uma versão, que não corresponde à verdade, de que eu recebi ordens para atacar os estudantes que estavam concentrados no CACO, o Centro Acadêmico da Faculdade de Direito, na Praça da República, no centro do Rio. No dia 1° de abril de 1964, de manhã, dois sargentos assustadíssimos me informaram que estava havendo um conflito em frente à Faculdade de Direito, que os estudantes estavam reagindo contra o golpe, fazendo comício, quando chegaram paramilitares armados atirando, obrigando os estudantes a se esconder dentro da faculdade, onde ficaram encurralados. Os agressores estavam armados, apontando para a porta da faculdade e com granadas para atirar nas janelas, para os estudantes saírem à força! Eu achei isso um absurdo, desumano, uma barbaridade… Então, peguei um jipe com alguns subordinados e fomos para a Casa da Moeda, perto da Faculdade de Direito. Quando cheguei, adverti os agressores que ali era uma área militar e que eles se retirassem, mas eles apenas levantaram as armas. Depois, fugiram em Kombis, pela contramão. Assim, cerca de 400 estudantes foram salvos e libertados…

 

Só com a Constituinte
as coisas melhoraram.
Hoje sou professor
com mestrado
e doutorado

 

O Saquá – Então, foi quase um ato de heroísmo…

Ivan – Não, eu não considero um ato de heroísmo; foi no máximo um ato de bravura, pois eu estava defendendo a legalidade. Os ilegais eram os golpistas! Quando quebramos a porta da faculdade e entramos, a cena que vimos a gente não esquece: tinha estudante caído na escada do salão principal, por causa do cheiro das bombas jogadas; tinha gente na janela pulando para a Rádio MEC; moças trancadas no banheiro e muita gente passando mal… O que me recompensa ainda hoje é o fato de que algumas dessas pessoas que estavam ali ainda continuarem lutando, como a Cecília Coimbra, do Grupo Tortura Nunca Mais, a Lara Abreu, a Vitória Grabois, a Maria Helena. Elas eram estudantes e com coragem. Mesmo sofrendo ameaças e sendo agredidas, até hoje, continuam lutando por dias

melhores e por um país menos desigual.

O Saquá – E qual foi a consequência no seu retorno ao quartel?

Ivan – O Coronel Aragão, cercado de ofi ciais, na mesma hora me prendeu dizendo: “Quem diria que você se tornaria um vermelho”? Fui preso no Parque São João, onde tinha uma lancha que me levou para a Fortaleza de Santa Cruz, em Niterói. Lá, junto com outros presos, combinamos uma fuga, porque soubemos de histórias de fuzilamento… Mas faltando um dia para escapar, alguém dedurou… Eles então pegaram os oficiais e colocaram presos num navio e eu, considerado perigoso, fui para o Forte do Imbuí, onde fiquei sozinho, no isolamento, por 78 dias. Nesta ocasião, uma junta de generais chegou a me oferecer uma transferência para Campo Grande, Mato Grosso do Sul, sem fazer oposição ao golpe, para continuar minha carreira militar, mas eu recusei! Então vieram 20 anos de amargura, aborrecimentos e perseguições. Isis, minha esposa, que também é professora, foi impedida de lecionar… A única coisa que eu pude fazer mesmo foi um concurso na UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), onde tirei o primeiro lugar na prova. Aliás, passei em primeiro lugar em 6 concursos, só que na hora de tomar posse, caía no mesmo problema: o atestado ideológico, obrigatório e que eu não tinha! Para fazer mestrado e doutorado, também tive problemas. Só depois de 85, com a Constituinte, as coisas começaram a melhorar. Hoje sou professor universitário, com mestrado e doutorado. Sou membro da Academia Carioca de Letras, fui presidente de vários conselhos como o Conselho de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, presidente do Conselho Deliberativo da ABI e outros. No governo Brizola, fui assessor pedagógico e diretor de cultura. Acredito que a cultura e a educação são essenciais para o país, por isso continuo na batalha.

O Saquá – Fale um pouco sobre sua obra. Qual foi seu primeiro livro publicado?

Ivan – O primeiro livro foi “A ideologia do cordel”, sobre a literatura do nordeste. Eu gosto muito de cultura popular e isto me levou a pesquisar os trovadores, os cordelistas e gerou o livro, na década de 1970. Outro foi de crítica literária, falando sobre o vocabulário do mundo do futebol: “Futebol e palavra”. Há pouco tempo reeditei o livro do Golpe de 64, uma versão ampliada, e publiquei um livro sobre Escritores Brasileiros que faz parte de uma série de 5 volumes. Publiquei ainda um livro sobre o jazz tradicional dos negros, pesquisando diretamente em Nova Orleans, nos Estados Unidos. E sempre mantive a oficina literária, no Rio. A oficina funcionou até em igreja e nunca foi interrompida; é a mais antiga oficina literária do Brasil. A oficina completou 40 anos.

O Saquá – Qual a novidade em seus livros recentes?

Ivan – A novidade é o livro sobre o jazz, que fala da cultura popular nos Estados Unidos. Este livro foi dedicado ao jazz de New Orleans que tem tudo a ver com o samba, com a Velha Guarda da Portela e com o Buena Vista Social Clube, de Cuba, também. Porque têm as mesmas raízes: a cultura indígena, a cultura europeia e a cultura africana, como no Brasil.

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Sobre o autor

Dulce Tupy é editora do jornal O Saquá e da Tupy Comunicações.