Sessão de puns no cinema e outros casos de polícia

Plantão de Polícia - AG Marinho

Sessão de puns no cinema

Antes de partirem para uma sessão de filme de terror em 3 D, a família comeu uma farta salada de repolho cru, batata doce e ovos cozidos, seguida de uma caprichada buchada de bode carregada nos salgados gordos, muita tripa de feira atochada de feijão branco e uma descomunal fartura de pimenta malagueta. A fita começou com efeitos especiais de tal realismo que levaram ao delírio a galera alucinada. Gritos e aplausos aclamavam as cenas que pareciam sair da tela e entrar nos intestinos de cada espectador. No auge do envolvimento e num instante de raro silêncio e de suspense envolvido de terror satânico, explode um redemoinho de peidos que invadiu o recinto e apodreceu o ambiente.

Como a cena era grotescamente tenebrosa, alguém achou que era um pum virtual com fedor artificial proveniente da bunda e dos arrotos de um cadáver podre, assombrado e aterrorizado que estava prestes a ser devorada por um monstro japonês peidorreiro e comedor de sushi de peixe podre. Na mesma sequência, um lobisomem da bunda absurdamente cabeluda rugia e devorava pedaços da carniça de um urubu de cemitério, enquanto uma hiena comia o cocô de uma múmia embalsamada. A cena passou, mas como os puns continuaram e o fedor se alastrou. Os protestos se transformaram numa monumental confusão quando as luzes foram acesas.

Os delatores apontaram os acusados. Voaram sacos de pipocas copos cheios de refrigerantes, xingamentos, berros, vaias e empurrões. Como a família peidorreira recusou-se a abandonar o recinto, a porradaria choveu no cinema e a gerência chamou a polícia. Um gordão, empanturrado de rango, ao receber ordem de prisão por peido podre e desacato, ficou tão nervoso que vomitou no guarda. Foi um banho com golfadas de um caldo rançoso de dobradinha e pé de porco ardido. Ninguém mais se entendeu na confusão que se tornou uma mistura de podridão e porradas e que acabou na delegacia com um monte de gente fedendo e prestando depoimento.

Esgulepada no andaime

O pintor da casa de Deutéria não usava cueca e subia na escada com uma bermuda velha da boca larga. Tanto subiu que Teteria viu, se assustou e se derramou em sonhos eróticos nos quais não faltavam largas pinceladas que terminavam com coloridas esparramadas de grossa tinta branca nos lábios da perseguida. Nunca se viu tanto vai-e-vem da dona da casa debaixo de um andaime. Seca de tesão se declarou tarada pelo visual e fissurada no glorioso badalo. Atentada e com coceira na mexerica, passou vaselina no beiço da vaca, chutou o balde e implorou para ser possuída com aquele pincelão de vasculhar perereca. Só numa tarde foram seis demãos de tinta.

Jotão, o marido corno apaixonado, chegou em casa disposto e fissurado para afogar o ganso, mas encontrou a mulher estrunchada e arreganhada esfregando uma pedra de gelo na perereca toda respingada de tinta. Uma metade estava roxa e a outra vermelha em fogo. Sem qualquer pudor e com detalhes sórdidos contou ao marido as aventuras praticadas com o pintor. Falou que foi espremida no tapume, fez vuco-vuco no andaime, lesco-lesco debaixo da escada, foi esgulepada de escanteio no rodapé da coluna, remelexeu a buzanfa na boca do latão e se engasgou no gargarejo do rolo sem cabo. Disse que tentou disfarçar esfregando removedor na pentelhada borrifada com tinta óleo, mas o resultado foi uma forte alergia, uma ardência que quanto mais coçava mais vontade tinha e quanto mais esfregava mais inchava e doloria.

Mesmo destruída por baixo levou tamanha sessão de porradas por cima que teve de ser rebocada para o hospital. Jotão se apresentou na delegacia, contou a história e vai responder processo em liberdade. O pintor, conhecido como Lobisomem, meteu o pé na estrada e foi trepar em outro andaime.

A urucubaca da velha caolha

Depois de ter furtado a carteira e desferido um tremendo soco na cara da velinha de 84 anos, Malvarisco saiu no pinote pra se livrar da galera que queria devorar o larápio na porrada, mas quando o safado atravessou a estrada tomou um porradão de um caminhão e caiu molambento no meio do asfalto. O povo, preocupado em socorrer a idosa, que ficou com um olho derramado e cego e o braço direito quebrado, não quis nem saber de juntar os pedaços da perna e do pé do ladrão que ficaram esparramados em pedaços no meio da estrada. Atochado de antecedentes criminais, era procurado por ter fugido da cadeia após ter sido condenado por estupro e assassinato de crianças. Amputado e algemado foi ovacionado com uma salva de vaias e xingamentos ao ser colocado na ambulância do resgate, de onde ainda se deu ao desplante de sacudir os ovos para os vaiantes.

Os farrapos dos pedaços esmigalhados foram varridos e encaminhados para o IML. Num hospital do Rio o ferimento gangrenou e o cotoco que sobrou teve que ser serrado nas proximidades da virilha. Mesmo capenga teve nova prisão decretada e voltou para o presídio de onde tinha fugido. Logo no primeiro dia se meteu numa briga. Na confusão tomou uma rasteira, espatifou a bunda na quina de uma escada, quebrou o osso da bacia, fraturou o fêmur e está sendo todo ruído por uma sinistra bactéria infecciosa de alta resistência. Dizem que a especialidade da velha que ficou caolha é feitiçaria de urucubaca e tem pacto com o maligno a quem já encomendou 13 anos de martírio para o ladrão azarado.

Além de fino é torto

Zica se despencou pelo morro abaixo, ralou a bunda, as maminhas e uma boa parte da vala do rego. Pra completar o estrago, quando chegou próximo ao final do tombo ainda trombou de pernas abertas com uma pedra pontuda estacionada no meio do caminho. O efeito devastador foi o caos da perereca esfacelada com destruição quase total, seguida de um desmaio imediato, que causou vasta turbulência entre os moradores diante do real conhecimento da catástrofe ao se depararam com a irreparável inutilidade das íntimas partes da vítima e da sua eterna impossibilidade de serventia. Então choram saudades dos momentos tão recentemente passados e das lembranças de instantes recém-vividos e agora desaparecidos. Zica era a festa e a alegria da rapaziada atrasada, dos mocinhos virgens, dos que nunca tinham visto de perto e ao vivo uma aranha cabeluda, dos que desconheciam as cavernas escondidas na entranhas das lingeries, dos insatisfeitos maridos das esposas sem fogo de cama, dos cornos, dos boiolas e das travecas do bairro.

Ao acordar no hospital disse que o tombo não foi acidental; que foi jogada pirambeira abaixo por um rapaz conhecido como Cabo de Bengala, porque tem o pirulito tão torto que quando se excita o bilau enfia a cabeça no próprio umbigo. A situação foi o motivo de risos, comentários e da desavença que terminou com a tentativa de homicídio. O acusado foi preso. No xadrez foi obrigado a mostrar a arma torta do crime que, por ter sido considerada muito fina, os presos acharam mais parecida com outra coisa e batizaram o bilau do recém-chegado com o apelido de Cotonete de Umbigo.

Vuco-vuco na alvorada

Quando começou o foguetório da alvorada, Chininha já estava no quarto round de sexo na praia. No rala e rola suava tanto que a perereca encharcada entupiu empanada com areia, enquanto a bunda, à milanesa e toda esfolada, de vermelha ficou roxa. Enquanto o bombardeio espocava pra tudo quanto era lado, Fredinho, atochado de fumo e de viagra chamava bão, chapuletando a tarraqueta usando uma camisinha espedaçada. Uma cachorrada amedrontada passou correndo desnorteada pela praia. A cavalada que pastava tranquila partiu num galope enfurecido e saiu atropelando as barracas de camping montadas na areia. Chininha e o namorado estavam tão engatados que nem se deram conta do que estava acontecendo.

Um alazão esbaforido, que comandava a tropa, seguido de éguas e filhotes, abriu passagem pelo acampamento exatamente no momento em as bundas dos dois amantes emboladas se esfregavam num sobe e desce acelerado. O foguetão soltou uma chuva de lágrimas coloridas e três estrondos de estourar ouvidos. Foi só um coice, mas duas bundas foram lançadas há mais de cinco metros de distância. O resto do estrago ficou por conta da tropa que vinha atrás e passou por cima pisoteando a dupla. Os barraqueiros chamaram o resgate. O casal, desmaiado, foi levado pelado para hospital onde foram medicados, radiografados e enfaixados com braços, costelas e dedos quebrados. Depois de lavados afirmaram que nem sequer se conheciam e nem mesmo um sabia o nome do outro.

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Sobre o autor

AG Marinho é jornalista e poeta. E-mail: siragom@gmail.com.