Há cinco
anos e meio tomava posse na Comarca de Saquarema como juiz de direito
o Dr. Sérgio Lousada. Conhecido por seu temperamento forte e decidido,
pela clareza e objetividade de suas sentenças, o Dr. Lousada conquistou
aos poucos a sociedade saquaremense. Com suas ações sociais,
distribuição de cestas básicas, intervenção
no Abrigo dos Velhinhos Nossa Senhora do Carmo, no Porto da Roça
e Asilo de Crianças Porta do Sol, em Vilatur, numa ação
conjunta com o Ministério Público, através do Dr.
Odilon Medeiros, o Dr. Lousada tornou-se mais que um símbolo da
justiça na cidade, mas ,uma das personalidades mais atuantes na
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vida social. Assim, ao tomar posse recentemente na Comarca
de São Gonçalo, para onde foi por merecida promoção,
já deixa saudades em todos aqueles que o conheceram mais de perto.
Em Saquarema o Dr. Lousada permanece, acumulando os dois cargos de juiz
na Comarca, inclusive o de juiz eleitoral e mais suas novas atribuições
em São Gonçalo até o final das eleições,
quando se transfere integralmente. Porém, seu coração
fica em Saquarema, cidade que adotou para morar e viver junto com sua
família. É neste imenso mar azul que ele se espelha e,
quem sabe, se inspira para continuar vivendo o desafio do seu dia-a-dia
como juiz de direito.
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O
Saquá – Qual o balanço que o senhor faz de sua
passagem por Saquarema?
Dr. Lousada - Foi muito positiva. A história com Saquarema
começou quando eu concorri para a Comarca e não conhecia
a cidade, só de passagem. Tomei posse no dia 23 de dezembro
de 2002, às vésperas do Natal. E me apaixonei, me encantei
tanto pela cidade e seu povo, pelo tipo de vida que se adota em Saquarema,
que ainda é uma cidade quase provinciana, apesar de tão
próxima dos centros urbanos, Niterói e Rio de Janeiro,
me apaixonei de tal forma por esta poesia que é Saquarema que
já no início de janeiro eu estava negociando a aquisição
de minha residência. E vim, fixei domicílio com a minha
família, meus filhos, e até hoje vivo muito feliz aqui,
com o Fórum pertinho, o que facilita o trabalho, não
pego trânsito para trabalhar e não tem perigo para voltar
para casa mais tarde. Assim eu pude me realizar quase que plenamente
em Saquarema e já estava, como se diz por aí, de pijama,
pronto para aguardar a aposentadoria. Porém, infelizmente,
eu não consegui realizar o meu maior sonho profissional que
era um projeto por min iniciado em 2004, com a ajuda do promotor e
outros colegas que passaram pela cidade. Fizemos um relatório
da história do Fórum de Saquarema, do volume de processos,
verificamos os requisitos legais exigidos pela Lei de Organização
Judiciária do Estado do Rio de Janeiro, para que se pudesse
criar a 3ª Vara em Saquarema, a Vara de Família, especializada
em família, infância, juventude e idoso. A minha vocação
realmente era uma dedicação exclusiva à área
social, porque Saquarema, apesar de ser um local maravilhoso, tem
também uma carência muito acentuada, nossas crianças,
as mais carentes, passam por um abandono generalizado. Nós
não temos escolas profissionalizantes, não temos creches
em número suficiente, porque isto decorre da dificuldade que
a Administração Pública em geral encontra em
atender à demanda crescente. E era isto que estávamos
objetivando fazer, mergulhar com garra, afinco, no atendimento social
pelo Poder Judiciário, voltado para a infância, a juventude,
o idoso e para as famílias em situação de dificuldades,
risco, desamparo. Infelizmente não foi possível. Há
mais ou menos 2 meses eu obtive uma audiência com o presidente
atual, o desembargador Murtha Ribeiro, que, muito entristecido, me
informou que não seria possível a criação
dessa Vara, por absoluta impossibilidade financeira. A Lei de Responsabilidade
Fiscal impede certos empreendimentos que gostaríamos de fazer.
Hoje o Tribunal de Justiça não tem como atender nosso
pleito, porque o orçamento está todo comprometido e
a perspectiva é só voltar a estudar esse projeto depois
de 2010. Isso me entristeceu demais e eu comecei a pensar: de que
adianta ficar em Saquarema, atrasando minha carreira, sem poder me
dedicar da forma como eu gostaria a nossa sociedade? Já recusei
4 promoções! E acabei concluindo que será mais
útil ao Poder Judiciário que eu continue servindo com
alegria, empenho e tenacidade num novo desafio. Aí resolvi
que era a hora de submeter meu nome para concorrer a uma promoção.
Quase que imediatamente – essas coisas que Papai do Céu
faz e a gente não consegue entender bem por quê –
surgiu o Juizado Especial Cível de São Gonçalo,
que é uma Vara muito difícil, muito pesada porque lida
com um material humano muito necessitado; 90% do jurisdicionado é
composto de pessoas carentes, de baixíssima renda e que não
têm bagagem cultural e formação sequer para se
expressar corretamente, quanto mais para contratar advogado. É
um tipo de desafio que se enquadra no meu perfil: prestar jurisdição,
levar justiça para as pessoas menos possuídas, pessoas
que estão quase marginalizadas. È um desafio e tanto,
luta enorme. São 500 processos novos todos os meses. Aproximadamente
20 juízes se inscreveram neste concurso de promoção
e dos 6 juízes que estavam em condições de serem
votados eu era o 6º. Para minha surpresa, dos 21 desembargadores
19 votaram em mim! E o que me causou muita emoção e
me deu firmeza para continuar caminhando com os mesmos passos firmes
que me trouxeram até aqui foi o fato do decano do dia, o desembargador
Sérgio Cavallieri Filho, uma pessoa de inteligência ímpar,
fez a apresentação do meu nome, com uma manifestação
pouco comum de sua excelência, elogiando com veemência
o trabalho por nós realizado ao longo desses 8 anos de magistratura,
enfatizando os últimos 5 anos e meio em Saquarema, por se tratar
de uma Comarca que, reconhecidamente, pelo próprio do Tribunal,
já precisa de mais órgãos jurisdicionais. Aquele
elogio foi um incentivo, uma massagem no ego. Foi o reconhecimento
das autoridades superiores, o reconhecimento daqueles que nós
temos como um padrão a seguir. E realmente fiquei muito feliz
de saber que poderei renovar essa vontade de servir melhor, dar um
pouco mais de mim e aproveitar que a idade ainda me permite extravagâncias,
porque vou continuar morando em Saquarema, onde fixei residência
com a minha família, e irei todos os dias a São Gonçalo
e retornarei no final do expediente. Assim não vou perder os
laços com a cidade que eu escolhi pelo coração.
Vou continuar servindo com honra ao Tribunal de Justiça, que
é a minha segunda paixão depois de minha família.
A família está acima de tudo, no plano material, e em
segundo lugar o meu trabalho ao qual me dedico como a um sacerdócio.
O
Saquá – O senhor é filho de um grande radialista,
Júlio Lousada. Conta um pouco da história da sua vida.
Dr. Lousada - Na verdade, eu sou um homem simples, de origem humilde.
Tive a sorte de nascer numa família muito bem estruturada,
o privilégio de receber muito amor, carinho, orientação
e bons exemplos. O meu pai foi um homem que alcançou o reconhecimento,
até internacional, porque fazia o que eu procuro imitar. Ele
dedicava todo seu potencial de trabalho para atender e dar conforto
às famílias brasileiras. Durante 54 anos ele fez a Oração
da Ave
Maria e criou também a novena do Menino Jesus de Praga, na
Rádio Tupi, às 18 horas, levando 15 minutos de fé,
conforto, amor a todas as famílias brasileiras. E aquilo que
ele fazia para o público em geral era exatamente o que fazia
24horas
por dia para a minha mãe, para os meus irmãos e para
mim que sou o caçula da prole. Nascemos no Méier, que
é um subúrbio do Rio, do qual eu tenho gratas lembranças
dos vizinhos, dos amigos, das cadeiras nas calçadas, do final
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Dr. Sergio Lousada
de tarde
com a passarada cantando e daquela comunidade de amigos que se ajudavam
e até se protegiam. Tenho lembrança da minha infância
e juventude, do meu pai, aos domingos, acordando cedo, vestindo seu
terno e lendo jornal na varanda, onde ele passava a manhã recebendo
vizinhos, orientando, aconselhando. Foi nesse clima de muita tranqüilidade
e valores humanos que conseguimos desenvolver o mesmo gosto do papai
para encontrar a verdadeira felicidade nos pequenos gestos e nas coisas
simples da vida. Até hoje eu mantenho a tradição,
lá em casa. A gente sempre, às 18 horas, reserva uns
minutinhos para louvar Nossa Senhora e rezar um pouco, agradecendo
ao Menino Jesus de Praga pelas bênçãos que tem
trazido a todos nós, pedindo paz e harmonia, para que gente
possa viver num mundo mais fraterno e deixar aos nossos filhos e aos
nossos sucessores bons exemplos. É isso que vale da vida.
O
Saquá – As suas sentenças são famosas pela
clareza e perfeita formulação da língua portuguesa.
Qual foi a sua base escolar?
Dr. Lousada - Minha primeira escola foi a Escola Londres, quase no
Engenho de Dentro; uma escola pública de excelência reconhecida
no subúrbio, pela qualidade dos professores. Tive a sorte de
ser filho de uma professora. E o papai também era um apaixonado;
adorava a língua portuguesa, estudava profundamente e fazia
uma brincadeira muito gostosa aos domingos, quando éramos crianças.
Ele virava pra mim e dizia: “Filho, me ajuda a ler o jornal
porque eu estou com a vista muito cansada”... Aí a gente,
carinhosamente, começava a ler o jornal para ajudar o papai
e ele ia nos interrompendo a cada linha e perguntava: “que palavra
é essa que eu não entendi bem, você sabe o que
quer dizer essa palavra?”. “Não papai, não
sei”. Então ele dizia : “Por favor, pega ali o
pai dos burros (que é o dicionário) para a gente pesquisar
e aprender”. Essa brincadeira desenvolveu uma facilidade na
nossa compreensão da língua portuguesa, que é
muito difícil, é repleta de variantes e a expressão
pode se tornar dúbia e complicada. Como a nossa função
é dizer a justiça, é dizer a norma aplicável
ao caso concreto e interpretar essa norma para que atenda aos ditames
da justiça eu procuro sempre falar com objetividade e com clareza
para que as partes não tenham dúvida na compreensão
do que nós estamos dizendo na sentença. A sentença
prolatada por um juiz é o sentimento que o juiz teve sobre
os fatos que foram submetidos ao julgamento. E esse sentimento tem
que ser claro, puro, verdadeiro. Sentir não é fingir.
Sentir é traduzir o que a alma está transbordando. Eu
tenho que me dirigir ao jurisdicionado, seja ele de maiores luzes,
seja uma pessoa ofuscada de conhecimento, com a facilidade necessária
da compreensão que ele deve ter sobre aquilo que o Estado-Juiz
espera dele naquele momento, naquela situação. Então
foi assim a minha formação: colégio público
e família. Papai tinha o hábito de nos acompanhar nos
livros, nas bibliotecas, isso acabou se incorporando no nosso dia-a-dia
e, até hoje, eu não durmo sem uma pequena leitura para
acalmar o espírito da agitação do dia-a-dia.
Leio muito mais hoje questões técnicas, doutrina, jurisprudência,
mas sempre encontro um pequeno espaço para a poesia, porque
a poesia é a música da alma...
Vou
continuar
morando em
Saquarema junto
com minha família
O
Saquá – E quanto as suas atividades sociais na cidade,
o trabalho no Abrigo dos Velhinhos e no Asilo das Crianças?
Dr. Lousada - Conseguimos reunir a sociedade em torno de questões
que mereciam atenção. Saquarema é uma cidade
que tem muita carência, aliás qual cidade no mundo está
livre das carências? A população vem crescendo
e os recursos vão escasseando. Infelizmente, Saquarema é
uma das mais belas cidades da Região dos Lagos e ao mesmo tempo
uma das mais pobres. Eu descobri que nós tínhamos apenas
1 asilo e 1 abrigo e me envolvi muito com esta questão porque,
ao visitar estes locais, constatei que o atendimento que era prestado,
com muito sacrifício e dedicação dos voluntários,
era insuficiente. Na verdade, as pessoas que estavam abrigadas ou
asiladas estavam sofrendo muito e, por isso, busquei o apoio da sociedade,
procurei com todos os meios que me foram disponibilizados, inclusive
com a ajuda do jornal O Saquá, que foi decisivo nessa nossa
jornada, mobilizar a sociedade, pedindo que todos ajudassem. Foi importante
porque nós conseguimos resgatar a dignidade e cidadania daquelas
pessoas mais idosas, carentes de tudo, pessoas abandonadas pelas próprias
famílias... E fizemos campanhas do agasalho, dando um pouco
de calor, campanhas de distribuição de cestas básicas
no Natal, enfim, foram várias ações sociais nas
quais eu apenas atuei como organizador, buscando a união da
sociedade saquaremense para diminuir o sofrimento das pessoas mais
carentes e acho que conseguimos bons resultados e sólidos porque
hoje essas 2 instituições estão recebendo apoio,
inclusive da Administração Pública, que conseguiu
disponibilizar recursos físicos e materiais, melhorando um
pouco a situação do abrigo e do asilo e muita, muita
ajuda de particulares que acabaram se engajando. Tem pessoas que todos
os meses levam donativos, que contribuem financeiramente, tem pessoas
que passaram a fazer visitas constantes, levando um pouco de amor
que é importante também. Melhorou muito. Assim, diminuímos
um pouquinho a enorme carência dessas pessoas excluídas.
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