Ano VII - nº 102 ● NOVEMBRO de 2008                                     Diretora: Dulce Tupy ● Saquarema - Rio de Janeiro



O Dia Nacional da Consciência Negra
 

O Dia 20 de novembro foi declarado pela primeira vez como Dia da Consciência Negra no Rio de Janeiro, pelo então governador Leonel Brizola, inspirado pelo antropólogo Darcy Ribeiro. Ambos inauguraram, na ocasião, o busto do guerreiro negro Zumbi dos Palmares, na Praça Onze, berço do samba carioca. O local do evento e a data não foram escolhidos por acaso. Dia 20 de novembro é a data em que se comemora a morte do líder do Quilombo dos Palmares, Zumbi, traído por um de seus guerrilheiros que o esfaqueou numa cilada. E a Praça Onze, onde viviam os negros, judeus e polacos pobres, foi o cenário onde surgiu e se estabeleceu o samba urbano, perseguido pela polícia da primeira república, mas que depois dos anos 30 tornou-se símbolo nacional.
Açoitados por séculos de escravidão, os negros no Brasil só conseguiram se libertar em 1888, há 120 nos atrás, sendo o nosso país, junto com Cuba, o último no mundo a declarar a libertação dos escravos. Esta libertação dos negros que chegou tardiamente em nossa sociedade é uma das raízes do preconceito racial que persiste até hoje. Negros e mestiços têm sido vítimas do racismo explícito ou velado, ao longo da história, apesar de serem cidadãos como todos os demais, pagarem seus impostos, terem seus filhos, estudarem ou viverem em favelas, em condições muitas vezes subhumanas. Hoje há estatísticas que comprovam que a maioria dos presos nos presídios e cadeias é composta de oriundos da população negra, ou seja, dos afro-descendentes, para usar uma terminologia mais atual.
Também está comprovado que os negros têm salários menores, no mercado e as mulheres negras, em especial, têm salários ainda menores do que as mulheres brancas que também são vítimas de preconceito. Apesar desta relação perversa que se mantém até hoje, porém, muitos negros têm conseguido se sobressair na escala social, principalmente através do futebol, da música popular e das artes em geral. Negros na política, por exemplo, ainda são uma minoria. E

 

nos cargos de primeiro escalão, tanto no serviço público, como nas empresas particulares, negros ainda são exceção, quase uma raridade.
Este ano, 350 municípios do Brasil comemoraram o Dia de Zumbi dos Palmares ou Dia da Consciência Negra, em todo o país e, no Rio de Janeiro, o presidente Lula inaugurou um busto em homenagem ao chamado “Almirante Negro”, o marinheiro José Cândido que se levantou contra as punições corporais praticada na marinha, em 1910. Filho de José Cândido, o Candinho, que trabalha na Associação Brasileira de Imprensa, entre outros parentes, participaram do evento na Praça XV, no centro da cidade. Lula revelou que pretende, talvez no ano que vem, declarar o dia 20 de novembro feriado nacional. Nada mais justo, em se tratando de um país que tem os antecedentes que temos.
Afinal, não existe raça branca ou negra, vermelha ou amarela. Existem sim a raça humana! A cor da pele pode ser um diferencial para muita gente, principalmente para a burguesia e membros da elite social, acostumados a medir as pessoas pela aparência. Mas fatos relevantes na história, como por exemplo, a própria eleição de Barak Obama para presidente dos Estados Unidos, mexem e remexem com estas atitudes preconceituosas que se perpetuaram ao longo do história. Filho de um imigrante africano, do Quênia, com uma mãe americana, criado por um padastro da Indonésia, portanto asiático, Obama tem e si vários continentes: América, África e Ásia.
A luta contra o preconceito racial é uma conquista dos dois últimos séculos. Desde a luta pela libertação dos escravos, no século XIX até a luta pela independência dos países africanos que viviam sob o jugo do colonialismo, no século XX, a luta contra o racismo é imperiosa e transcende o nosso Brasil. Um Brasil cuja riqueza é justamente esta mistura das nossas origens, indígenas, européias, africanas. Um Brasil plural de muitos matizes, que faz do povo brasileiro um modelo a ser seguido por outros países. Isto não significa que conseguimos resolver todos os nossos problemas de racismo. Mas estamos caminhando para virar esta página triste da nossa história.

 

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