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O repouso de um guerreiro. Vilmar Berna, presente!

No lançamento do Prêmio Chico Mendes de Jornalismo Ambiental, Vilmar recebeu a homenagem do Sindicato dos Jornalistas pelas mãos do prefeito Axel Grael, de Niterói

Dulce Tupy

O escritor, jornalista e ambientalista Vilmar Berna, foi mais uma vítima da pandemia de COVID no país. O seu falecimento, em Niterói, onde vivia com a esposa, a bióloga Inês Berna e seus filhos, deixou parentes, amigos, companheiros ambientalistas e diretores do Sindicato dos Jornalistas do Estado do Rio de Janeiro – no qual exercia a função de conselheiro de ética – desconsolados. Porque Vilmar era mais do que uma liderança histórica nas lutas socioambientais no Rio de Janeiro, no Brasil e o mundo! Vilmar era uma unanimidade no movimente ambiental que ajudou a construir.
Nascido em Porto Alegre (RGS), Vilmar Berna teve uma infância difícil ao lado do pai e irmãos, em Brasília, Niterói, Macaé, e novamente no Rio Grande do Sul, além de uma adolescência cheia e conflitos, em abrigos para menores abandonados e infratores. Ao retornar a Niterói, serviu o Exército, por não ter onde morar. E foi nas agruras da vida que aprendeu a fazer de um limão uma limonada! Nos livros que leu nas bibliotecas públicas, aprendeu preciosas lições de vida e adquiriu uma cultura autodidata surpreendente, livre de preconceitos.

MILITÂNCIA AMBIENTAL

Assim, não é surpresa que tenha participado das primeiras lutas socioambientais em São Gonçalo, onde criou a ONG Univerde, defensora da Mata Atlântica que, junto com a Associação de Moradores do Engenho Pequeno, preservou uma área que ia virar um lixão. Em 1984, fundou em Niterói a ONG Defensores da Terra, que presidiu por 6 anos. Fundou o Jornal do Meio Ambiente, pioneiro no setor ambiental e, em 1996, criou a Rede Brasileira de Informação Ambiental (REBIA), de circulação nacional e que existe até hoje, cuja revista é distribuída gratuitamente em eventos e gratuitamente nas redes sociais.

Vimar fundou a ONG Defensores da Terra, que presidiu por 6 anos, e foi editor do Jornal do Meio Ambiente


Vilmar Berna morava há anos em Jurujuba, numa comunidade de pescadores artesanais, em Niterói, em frente à Baía da Guanabara, pela qual tanto lutou, durante décadas. Reconhecido por sua atuação como ambientalista, no Rio de Janeiro, no Brasil e no exterior, tornou-se em 1999 um dos brasileiros a receber o Prêmio Global 500 de Meio Ambiente da ONU (Organização das Nações Unidas), no Japão, onde denunciou o abuso da pesca da baleia praticada naquele país, diante do próprio imperador Akihito! Naquele ano, ele foi o único brasileiro premiado, entre outros que já haviam recebido o prêmio, como o líder seringalista e defensor da Amazônia Chico Mendes e o sociólogo Betinho, criador de vitoriosa campanha contra a fome no Brasil.

Comprometido com os Direitos Humanos, Vilmar lutou pela pela paz, pela democracia, pelo humanismo e pela ecologia, em especial contra a poluição da Baía de Guanabara. Uma de suas maiores influências foi o livro Primavera Silenciosa, da jornalista Rachel Carson, um clássico da história do movimento ambientalista. Mas o texto que mais o impressionou, ainda na juventude, foi a Carta do Cacique Seatle, em 1854, dirigida ao presidente dos Estados Unidos, em defesa das terras que pertenciam às tribos indígenas Suquamish e Duwamish, localizadas no estado de Washington, perto do Canadá. Só mais tarde Vilmar conheceria o termo ecologia, proposto em 1869 pelo biólogo alemão Ernst Henrich Haekel.

LIVROS E LEIS

Autor de cerca de 20 livros, entre eles “Como fazer educação ambiental”, “Ecologia para ler, pensar e agir”, “O desafio do mar”, além de livros infanto-juvenis como “O Tribunal dos Bichos”, Vilmar Berna também atuou na redação de mais de 40 projetos que se tornaram leis no Estado do Rio de Janeiro, entre elas a do ICMS Verde, que tanto beneficia os municípios. São leis que foram elaboradas nos 8 anos em que trabalhou no gabinete do deputado Carlos Minc e posteriormente no do deputado Alessandro Calazans, na ALERJ (Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro), com repercussão até hoje.

Vilmar Berna, entre Fernando Gabeira e Carlos Minc, quando o ambientalismo estava só começando no Brasil


Em sua homenagem, o deputado Carlos Minc (PSB) lamentou nas redes sociais profundamente sua morte e o prefeito de Niterói, Axel Grael (PDT), companheiro de luta pela despoluição da Baía de Guanabara, declarou: “Quero expressar minha tristeza com a notícia da partida do Vilmar Berna. Ele sempre fez parte da minha trajetória como ambientalista. Obrigado Vilmar. Que siga em frente, agora em lutas mais elevadas. Aos familiares, meu carinho e solidariedade. Perder o Vilmar significa para mim a perda de um companheiro de caminhada. Para o movimento ambientalista é a perda de um militante de primeira hora, um nome que alcançou projeção regional, nacional e mesmo internacional, com o Prêmio Global 500. Mas, a luta ambientalista pressupõe perseverança e resiliência. E o Vilmar continuará a nos inspirar e motivar a seguir em frente”.

Vilmar era um idealista! Escreveu em seu blog: “Durante boa parta de minha infância vendi sonhos, doces que meu pai fabricava com maestria. De uma certa maneira, continuo como um vendedor de ‘sonhos’ agora na forma de idéias”. E conta que foi numa solitária, num albergue para menores em Porto Alegre, que viu o belíssimo entardecer no Guaíba por uma portinhola. “A observação destes belíssimos entardeceres me reconfortava a alma!”. Anos depois viria a conhecer as atividades do engenheiro agrônomo José Lutzemberger, em 1971, quando da criação da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (AGAPAN), uma das primeiras ONG ambientalistas no Brasil e América Latina.

Vilmar e a esposa Inês Berna, bióloga e companheira de vida e trabalho, no trânsito pesado no centro de Niterói

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