Coronavírus em clima de instabilidade institucional

Autor do livro “Forças Armadas e Política no Brasil”, O historiador José Murilo de Carvalho lembra que o artigo 142 tem interpretações conflitantes (Foto: Divulgação/ABL)

O clima tenso na República brasileira vem experimentando um movimento crescente desde que Jair Bolsonaro assumiu a presidência. Entre os fatos que influíram no início da tendência dessa trajetória ascendente estão, por exemplo, a reação à tentativa do presidente nomear, para o cargo diplomático mais importante do Brasil no exterior, seu filho cuja experiência internacional, segundo o próprio, era a de fritar hambúrguer em lanchonete americana.
Em seguida, ofendeu a esposa do presidente da França, xingou jornalistas, apoiou expressamente, ou pelo silêncio, referências pejorativas que seus filhos e ministros fizeram a outros poderes e países, além de ter sugerido intervenção militar e estimulado movimentos pelo fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal (STF). Por último, a Polícia Federal apertou as milícias virtuais do bolsonarismo, o presidente elevou o tom das ameaças ao STF e a crise institucional se aproximou perigosamente de um ponto de ruptura.

PREOCUPANTE

Nem parece, mas tudo isso acontecendo num país devastado pela pandemia do coronavírus, com milhares de mortes semanais e sem um titular no Ministério da Saúde, para onde foi nomeado um ministro militar (e não médico) interino. Entre o final do mês de maio e os primeiros dias de junho, o Brasil tornou-se o segundo país com mais mortes provocadas pelo coronavírus, ultrapassando a marca de 35 mil vidas perdidas.

A tensão política desviou o foco do que realmente deveria importar: o combate ao coronavírus! Esta opinião é endossada pelo cientista Miguel Nicodelis, professor de neurobiologia da Universidade de Duke, nos Estados Unidos: “A população precisa entender que a situação é preocupante. Estamos enfrentando uma guerra biológica. A prioridade central tem que ser a de reduzir o número de mortos”.

SEM POLÍTICA

O sanitarista Daniel Dourado, da Universidade de São Paulo (USP), também vê riscos de uma retomada precoce: “Não se pode reabrir a economia sem a garantia de que a transmissão foi controlada. Sem isso, o número de infectados vai explodir e os governos federal, estaduais e municipais terão que fechar tudo de novo”, alerta. Já o professor roberto Medronho adverte: “Entendo a angústia de prefeitos e governadores, que estão com a corda no pescoço, mas o risco de forçar uma antecipação da abertura, antes da hora, é provocar um repique da doença”.
Agora, os governadores parecem que vão capitular. Além de terem que enfrentar a fúria bolsonarista, estão sofrendo um forte assédio do empresariado, que reclama da paralisia econômica, sem falar da ansiedade dos prefeitos com as eleições deste ano. Qualquer país civilizado teria colocado as diferenças políticas de lado para salvar vidas.

RISCO DE GOLPE

Paralelamente, a crise institucional persiste, desviando o foco do que, realmente, deveria importar: o combate ao coronavírus. Ao ser indagado se com esta crise institucional a democracia corre riscos no Brasil, o historiador e escritor José Murilo de Carvalho respondeu taxativo: “Até o início do ano, o risco era pequeno, mas está crescendo, embora, por enquanto, num ritmo menor do que o coronavírus”.

Autor do clássico “Forças Armadas e Política no Brasil”, que acaba de ser relançado, José Murilo de Carvalho acha que, dificilmente, Marinha e Aeronáutica apoiariam qualquer ruptura de ordem política. Ele não está falando, nem pensa, num golpe como o de 1964, que aconteceu num outro contexto histórico, mas lembra que o artigo 142 da Constituição tem um “caminho aberto para interpretações conflitantes”.

A crise institucional continuou sendo impulsionada, no primeiro fim de semana do mês de junho, pelo presidente Bolsonaro na sua costumeira pajelança à frente do Palácio do Planalto, onde recepciona poucas centenas de seguidores de raiz com seus cartazes contra as instituições democráticas. O Congresso, junto com a sociedade, precisa dar apoio ao STF, no embate pelo estado democrática de direito.

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Sobre o autor

Silênio Vignoli é editor adjunto do jornal O Saquá.