CORONAVÍRUS: Os rompantes bolsonaristas com decisões desencontradas

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, tenta se equilibrar numa corda bamba, entre o lado técnico e o político (foto: Fabio Rodrigues/ Agencia Brasil)

Um dia após o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, ter afirmado que a orientação do governo federal era que os brasileiros permanecessem em casa, o presidente Jair Bolsonaro saiu do Palácio da Alvorada para um passeio por cidades-satélites de Brasília, transgredindo inúmeras recomendações médico-sanitárias e voltou a defender práticas que desafiam não só a posição de técnicos do ministério como de importantes órgãos internacionais, dentre eles a OMS (Organização Mundial da Saúde). Ignorando recomendações de prevenção contra o coronavírus, Bolsonaro produziu aglomerações, aproximou-se de pedestres e tocou seu próprio rosto com as mãos sem higienizá-las. O presidente também disse que a cloroquina, remédio usado contra a malária, “estava dando certo em tudo quanto é lugar”, apesar de não haver provas de eficácia contra o coronavírus.

A presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Gulnar Azevedo, avalia que Bolsonaro foi “deseducador” com sua aparição, indo na contramão, inclusive, de uma decisão da Justiça Federal, que suspendeu uma campanha do governo federal incentivando a ida das pessoas às ruas: “O Brasil não pode parar.” Segundo Gulnar Azevedo, “todas só deveriam estar na rua em caso de necessidade urgentíssima. E, mesmo assim, sem estar conversando próximos” – afirmou. Não foi a primeira vez que Bolsonaro ignorou recomendações das autoridades de saúde. No dia 15 de março, o presidente saiu à porta do Palácio da Alvorada para cumprimentar apoiadores que participavam de um ato pró-governo. Na semana seguinte, no pronunciamento em cadeia nacional, Bolsonaro defendeu o chamado “isolamento vertical”, em que somente pessoas de grupo de risco ficariam em casa. A medida não foi endossada por Mandetta, ministro da saúde.

IMPRUDÊNCIA

É impressionante o despreparo do presidente Bolsonaro diante de um desafio como a pandemia do coronavírus. Aliás, esse despreparo no trato da coisa pública nunca teve maior repercussão, nos seus 27 anos de mandatos populares, porque ele nunca desfrutou de maior importância política. Todos os assuntos são enfocados com aquela leviandade característica dos políticos que estão somente preocupados com a próxima eleição. Bolsonaro não gosta de comunicação. Prefere as mensagens envenenadas de “gabinete do ódio”. Ao afirmar que a pandemia do coronavírus é “uma gripezinha” que “a grande mídia propaga pelo mundo” é, no mínimo, uma imprudência governamental capaz de gerar uma crise de saúde pública no país, tão perniciosa quanto a “marolinha” de Lula na crise financeira de 2008.

Essa maneira de agir do presidente Bolsonaro provoca efeitos mais graves ainda, num momento em que se torna necessário para o país vislumbrar um rumo no combate à pandemia do coronavírus. Bolsonaro toma decisões sem consultar seus ministros mais afeitos aos problemas, como Paulo Guedes (Economia) e Luiz Henrique Mandetta (Saúde), provocando crises internas que se refletem em decisões desencontradas que acabam postergadas. O ministro da Saúde, além disso, também está tentando se equilibrar numa corda bamba, entre o lado técnico e o político, e acaba só conseguindo aumentar as incertezas.

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Sobre o autor

Silênio Vignoli é editor adjunto do jornal O Saquá.