O Centenário de Clarice

Cultura é Notícia - Beatriz Dutra

Clarice Lispector, uma das mais importantes e enigmáticas escritoras da nossa literatura, completa seu CENTENÁRIO DE NASCIMENTO no dia 10 de dezembro deste 2020.

A inspirada escritora Clarice Lispector (foto: Instituto Moreira Salles IMS – Jose Castello )

Durante 28 de seus 56 anos de vida, ela viveu e amou o Rio. Leio emocionada, “O Rio de Clarice – Passeio afetivo pela cidade”, de autoria de Teresa Montero, biógrafa da escritora. No livro estão contemplados “os locais por onde Clarice andou, morou e desenvolveu sua atividade profissional: Tijuca, Centro, Catete, Botafogo, Cosme Velho, Jardim Botânico e Leme.” Reúno aqui, para os leitores de “O Saquá”, passagens que muito me sensibilizaram: a) “Foi na Tijuca, onde os jesuítas instalaram grandes engenhos de açúcar no século XVI, que a família Lispector fixou residência quando chegou ao Rio de Janeiro em 1935 (Rua Lucio de Mendonça, nª 36, casa 3. (…) Era uma Tijuca de vacas gordas. Sim, porque se Clarice caminhasse até a rua Professor Gabizo, poderia beber o leite tirado diretamente de duas vacas que moravam ali”; b) “Os cinco anos em que morou na Tijuca deixaram marcas em seus textos, particularmente a natureza exuberante, um símbolo do bairro representado pela Floresta da Tijuca, cartão postal da cidade” (…) Mas quando Clarice viu um painel fotográfico de Humberto Franceschi sobre o “Açude da Solidão”, ficou fascinada, pediu a ele uma cópia de presente e assim escreveu sobre o fato: (…) “ele ocupará uma grande parte de uma parede – e de onde trabalharei poderei vê-lo, o meu “Açude da Solidão”, mas é uma solidão que dá amplitude a quem a vê, aquela tão profunda que já não se chama solidão, chama-se ficar sozinho com Deus.” ; c) Clarice quis muito “obter sua naturalização. Para abreviar o prazo de um ano, chegou a escrever uma carta ao Presidente Getúlio Vargas, na qual demonstrava o quanto já se sentia brasileira.” Vejam um trecho da carta: “Senhor Presidente. Tomo a liberdade de solicitar a V. Exª a dispensa do prazo de um ano, que se deve seguir ao processo que atualmente transita pelo Ministério da Justiça, com todos os requisitos satisfeitos. Poderei trabalhar, formar-me, fazer os indispensáveis projetos para o futuro, com segurança e estabilidade. A assinatura de V. Exª. tornará de direito uma situação de fato. Creia-me, Senhor Presidente, ela alargará minha vida. E um dia saberei provar que não a usei inutilmente.”

Pois é… o livro é assim: emoção seguida de emoção e beleza!… E “só a beleza salvará o mundo” (Dostoiévsky)… Muito ainda haveria a destacar, mas o melhor mesmo é ler o livro!…
Indicaria, ainda, aos interessados, o site www.oriodeclaricelispector.com.br que informa não apenas sobre o livro, mas do passeio pelos caminhos clariceanos que Teresa Montero realiza.

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Sobre o autor

Beatriz Dutra é poeta, “Cidadã Saquaremense” e membro da Academia de Letras Rio – Cidade Maravilhosa.