Populismo é o regime de uma mentira doce, para colher uma verdade amarga

O Brigadeiro Eduardo Gomes não era populista, mas tão popular que serviu até de nome para um delicioso e conhecido doce de chocolate (Foto: Wikipedia/FAB)

Com o fortalecimento do “capitalismo de Estado”, comandado pela China, a relação direta entre democracia e mercado já não é mais uma variável tão absoluta quanto parecia nos anos 80 e 90 do século passado. A atual democracia burguesa está sendo posta em xeque, entre outros fatores, pela desigualdade econômica exacerbada em países como o nosso. Apenas 20% dos latino-americanos acreditam que seus países estão progredindo, o que leva ao aumento do número de cidadãos que se declaram indiferentes ao tipo de regime que governa seus países, o principal motivo que alimenta o surgimento de governos populistas. Em recente pesquisa Datafolha ficou demonstrado que Bolsonaro e Moro têm público eleitor muito semelhante, assim como Lula e Luciano Hulk. No mínimo, indica que tanto o presidente atual quanto o ex-presidente têm adversários em uma eventual disputa presidencial em 2022. Num país tão desigual quanto o Brasil, Getúlio Vargas sempre derrotará o Brigadeiro Eduardo Gomes, dizia-se a propósito de 1945, quando o Brigadeiro – tão popular que deu até nome ao doce – foi derrotado pelo ministro da Guerra de Getúlio, General Eurico Gaspar Dutra. Em 1950, o Brigadeiro Eduardo Gomes foi derrotado, desta vez pelo próprio Getúlio.

Eduardo Gomes era popular, mas não era populista. De lá para cá, só tivemos governantes populistas eleitos diretamente para a presidência da República: Juscelino, Jânio, Collor, Lula, Dilma. Fernando Henrique não era popular nem populista, mas tornou-se o símbolo de um programa, o Plano Real, muito popular e, em alguns momentos, populista, mesmo que, tecnicamente, pudessem haver razões para fazer o Real valer mais do que o dólar, logo na largada do plano, e depois demorar a desvalorizá-lo no final do primeiro governo. O ministro da Economia, Paulo Guedes, antes de procurar Bolsonaro, foi a Luciano Hulk, pois sabia que para derrotar o lulopetismo era preciso um candidato que representasse a renovação política, mas que fosse popular, idealmente populista.

Popular X populismo

Fernando Henrique Cardoso não era popular nem populista, mas torna-se símbolo do Plano Real, muito popular e, em alguns momentos, populista (Foto: Wikipedia)

A propósito do populismo, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio, em palestra na Universidade de Coimbra, em Portugal, chamou a atenção para um movimento antissistema que surgiu entro os populistas que têm como tônica a oposição a alguns pilares da democracia. Marco Aurélio referia-se à ascensão de populistas da direita radical, com discursos autoritários e nacionalistas em várias partes do mundo: “Exacerbam a polarização com a diferenciação entre ‘nós e eles’ e o ataque ao que seria uma elite política corrupta que favorece países estrangeiros e imigrantes traindo o próprio povo”.

De fato, populismo é o regime político que planta uma mentira doce no presente para colher uma verdade amarga no futuro. Só pensa na próxima eleição e não nas próximas gerações. Costuma-se dizer que quando a conta chega, Inês é morta! Os populistas já se foram, restando à sociedade arcar com as consequências desastrosas de suas irresponsabilidades. Congelar preços, maquiar números dos índices de inflação, inventar pedaladas fiscais para melhorar o desempenho das contas públicas são artimanhas comuns aos regimes populistas aqui e mundo afora.
A maturidade democrática de uma sociedade é alcançada quando o povo tem informação e consciência clara sobre as consequências de suas escolhas. Palavras de ordem podem animar as massas em protestos de rua, mas o que faz a diferença, em médio e a longo prazos, é encarar a realidade como ela é. Não há vantagem alguma em dar crédito a aventureiros e viver de ilusões.

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Sobre o autor

Silênio Vignoli é editor adjunto do jornal O Saquá.