Contradições no mês do herói negro Zumbi dos Palmares

Editorial - Dulce Tupy

O genial antropólogo Darcy Ribeiro, quando vice-governador de Leonel Brizola, construiu na Av. Presidente Vargas, capital do Rio de Janeiro, um monumento ao herói negro Zumbi dos Palmares. Situado na área que era conhecida como Pequena África, no século 19, que incluía a antiga Praça Onze, onde nasceu o samba “Pelo Telefone” na casa da Tia Ciata, o monumento fica próximo ao atual Sambódromo – Passarela do Samba Darcy Ribeiro – onde se realizam os desfiles das escolas de samba. É o grande marco das comemorações do Dia 20 de novembro, Dia de Zumbi, feriado no Rio de Janeiro, hoje conhecido nacionalmente como Dia da Consciência Negra.

No rastro do resgate cultural – e ancestral – da população afrodescendente no Brasil, foi criada a Fundação Palmares, em 1988, ano das comemorações pelos 100 anos da Lei Áurea, que acabou tardiamente com a escravidão no Brasil. O primeiro presidente da Fundação Palmares foi o professor da UNB (Universidade de Brasília) Carlos Moura que, também foi um dos julgadores do desfile oficial das escolas de samba em 1988, que teve como resultado a surpreendente vitória da Vila Isabel com o enredo “Kizomba – Festa da Raça”, cujo samba de Martinho da Vila ficou eternizado como “Valeu, Zumbi”! Eu fazia parte daquele corpo de jurados e, se não me engano, também o historiador negro Joel Rufino, que mais tarde também seria presidente da Fundação Palmares. Muito emocionante aquele desfile antológico da Vila, tendo no papel de Dandara, mulher de Zumbi, a atriz Zezé Mota que levantou o público das arquibancadas na avenida!

RACISMO À BRASILEIRA

De lá pra cá, os afrodescendentes avançaram nas suas conquistas, entre elas a Lei das Cotas, que possibilitou que hoje nas universidades públicas estejam matriculados mais negros e mestiços do que brancos! Portanto, é um absurdo o que vivenciamos neste mês de novembro de 2019, mês de Zumbi dos Palmares, o grande líder quilombola, a triste nomeação de um presidente da Fundação Palmares um indivíduo “de direita”, Sérgio de Camargo, que tem o mal costume de dar declarações absurdas, para não dizer criminosas, a respeito dos afrodescendentes brasileiros.
A bancada de deputados federais do PSOL (Partido Socialismo e Liberdade), na Câmara Federal, em Brasília, fez uma representação ao Procurador-Geral da República, Augusto Aras, solicitando “a declaração de nulidade da nomeação” deste senhor para a Presidência da Fundação Cultural Palmares. O motivo seria o avesso do “cumprimento dos deveres constitucionais conferidos ao Estado brasileiro para enfrentar o racismo institucional e estrutural e para promover políticas de promoção da igualdade racial”.

A ação foi baseada nas declarações esdrúxulas deste senhor que beiram o surreal, quando afirma que no Brasil não existe racismo“ao contrário dos Estados Unidos, onde existiria um racismo real”. Para ele, “A negrada daqui reclama porque é imbecil e desinformada”. E sobre a escravidão: “terrível, mas benéfica para os descendentes”! É inacreditável, num país tão castigado pelas injustiças raciais como o nosso, que ainda hoje lota os presídios com uma maioria de jovens negros, como todos sabem. Mas uma reação da Justiça veio a tempo, através do juiz Emanuel Guerra, do Ceará, que acatou uma ação popular contra o governo Bolsonaro, por nomear esta figura nefasta. O juiz entendeu que há “excessos” nas declarações do tal sujeito, pois cabe à Fundação Palmares a defesa dos valores negros, como elementos formadores da nossa identidade nacional, ao lado de brancos e indígenas.

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Sobre o autor

Dulce Tupy é editora do jornal O Saquá e da Tupy Comunicações.