A ideologia do desmatamento da Amazônia tem origem na ditadura

Depois de muita pressão, principalmente internacional, Bolsonaro parece propenso a ordenar meia volta volver na ideologia do desmatamento consolidada durante a ditadura militar (foto: Agencia Brasil)

Embora as queimadas sejam apenas parte do problema do desmatamento da Amazônia, nem todo ele é provocado pelo fogo. Mas, as imagens da floresta amazônica em chamas, deflagra uma combustão na opinião pública, carbonizando a reputação do Brasil no cenário mundial. França, Alemanha, Canadá, Reino Unido e até os Estados Unidos reagiram com preocupação diante dos impactos dos incêndios. União Europeia cogita banir a importação de carne brasileira. Cartazes em diferentes idiomas deram o tom universal das manifestações em cerca de 20 países.
A crise internacional em torno da Amazônia amplia a o discurso antiambientalista do presidente do Brasil, somado a ações concretas de desmobilização dos órgãos de controle ambiental na região, não só colocou o país numa enorme confusão diplomática como também abalou os alicerces do agronegócio, atividade que levou 40 anos para tornar o Brasil uma potência agrícola exportadora, hoje ameaçada por barreiras protecionistas em retaliação ao descuido de Bolsonaro com o meio ambiente. Entre julho e agosto, Bolsonaro foi tragado pela crise das queimadas, pelos discursos contra ONGs e brigas com países do primeiro mundo sob alegação de que a Amazônia é só nossa! A propósito, para esclarecer de uma vez por todas, a Amazônia pertence a 9 países, ainda que 60% seja brasileira.
Nesse mesmo período, segundo pesquisa Datafolha, aumentou o contingente de pessoas que passaram a reprovar a conduta de Bolsonaro quando, por exemplo, esbravejou no Jornal Nacional da TV Globo, em pleno horário nobre: “quem exige a preservação do meio ambiente que só faça cocô dia sim, dia não!” Um linguajar desse nível na boca de um presidente da República foi o bastante para o índice de reprovação a Bolsonaro subir de 25% para 32%.

PRÓ-DESMATAMENTO

O discurso de soberania nacional e a exploração comercial da Região Amazônica – pano de fundo da crise ambiental provocada pelas queimadas – reproduzem um cenário estimulado pela ditadura militar. Entre 1970 e 1975, a ditadura militar desenvolvia uma abordagem mais direta, através de uma campanha pró-desmatamento, financiada pela Sudam (Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia), Ministério do Interior e Banco da Amazônia, tendo por alvo o progresso econômico do país, garantindo até a isenção de impostos a empresários que desejassem investir: “Toque a sua boiada para o maior pasto do mundo. Na Amazônia, a terra é barata e sua fazenda pode ter todo o pasto que seus bois precisam”, dizia uma propaganda.

Em 1971, durante o governo Médici (1969-1974), um anúncio exibia um touro com a mensagem: “Vokswagen produzido na Amazônia”, em alusão aos carros da fabricante alemã. Quatro anos depois, já no governo Geisel (1974-1979), um satélite do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) detectou uma queimada de grandes proporções na área sudeste da floresta amazônica, exatamente nas terras da Vokswagen. Na época, foi considerado o maior incêndio do planeta e com o efeito colateral da exploração desenfreada do território amazônico.

OCUPAÇÃO DESENFREADA

Segundo historiadores, a ideologia do desmatamento era um símbolo do progresso para os militares no poder durante a ditadura (1964-1985). O capitão reformado Jair Bolsonaro, presidente da República, é um herdeiro desta ideologia. Para o historiador Carlos Fico, doutor em História e professor da UFRJ, a “Marcha para o Oeste”, expansão territorial iniciada no governo Vargas, intensificou-se nos “Anos de Chumbo”, na ditadura. A construção da rodovia Tranzamazônica, em 1970, tinha por objetivo levar a população do Nordeste para o Norte. O historiador acrescenta que os eixos rodoviários motivaram uma ocupação de terras – nem sempre bem sucedida – com a formação de colonizações agrícolas. O desmatamento, então, foi-se consolidando com esta ocupação desenfreada, incentivada pela ditadura militar, que vem se arrastando até hoje.

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Sobre o autor

Silênio Vignoli é editor adjunto do jornal O Saquá.