Em nome do pai, do filho e do espírito histriônico de Trump

O deputado federal Eduardo Bolsonaro, nomeado embaixador do Brasil nos Estados Unidos pelo pai, Jair Bolsonaro, presidente da República, mesmo sem a devida graduação de diplomata concedida pelo Instituto Rio Branco (foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ Agencia Brasil)

Aproveitando a ocasião, Bolsonaro parece preparar-se para ganhar mais uma eleição: a do pai do ano. O presidente ignora impedimentos, atropela críticas de juízes, peita o “bandeirinha” Olavo de Carvalho, ensurdece os apitos de nepotismo e infla o nome do filho 03, Eduardo Bolsonaro, deputado federal, para o cargo de embaixador do Brasil, em Washington.

O candidato a pai do ano só pensa nisso. E naquilo também. Porte de armas e fuzis, trabalho infantil, desmatamento, especulação imobiliária em reservas ambientais, cortes na Educação, agrados a infratores de trânsito e gratidão ao árbitro Dias Toffoli, presidente do Supremo Tribunal Federal (TSF), por livrar o filho 01, Flávio Bolsonaro, de uma eventual penalidade por desvios de dinheiro na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro.

REPROVÁVEL

Não é republicano pai nomear filho embaixador. Ainda mais, sem que o nomeado tenha a devida qualificação para a carreira diplomática concedida pelo Instituto Rio Branco. Um dos pontos considerados fortes por Jair e Eduardo para a indicação é a suposta proximidade pessoal do deputado com Trump, presidente dos Estados Unidos, e seus filhos. Mas o relacionamento de países é algo muito mais complexo do que entre as pessoas físicas de seus representantes. Se assim não fosse, a política externa dos países se subordinaria a normas daqueles antigos livros de autoajuda do tipo “como fazer amigos”. E se Trump não se reeleger no ano que vem!

A intenção de Bolsonaro nos Estados Unidos, além de nepotismo, é reprovável sob diversos aspectos, um deles pelos danos que provocará à imagem do Brasil e da sua diplomacia profissional, e não amadora, historicamente bem vista. Isso preocupa. É mais um episódio dessa absurda política externa brasileira atual, que começou com o desmonte da agenda ambiental da qual o Brasil já foi líder global e hoje não é, sequer, um interlocutor confiável. Com 130 anos de República, o Brasil parece querer voltar à monarquia…

REPUBLIQUETA

O aspecto folclórico e até cômico dos argumentos utilizados pelo filho do presidente para representar o Brasil em Washington – ter fritado hambúrguer em Maine – começa a ficar em segundo plano, enquanto o que parecia “mais uma do presidente” ganha contornos de realidade. Cresce o temor de que tudo acabe virando um grande rocambole. Como se previa, a imprensa estrangeira já recorre à antiga expressão jocosa “República de Banana”, qualificando o Brasil, que estaria repetindo comportamento típico de diversas antigas nações latino-americanas atrasadas e subservientes aos Estados Unidos.

Enquanto isso, a Petrobras alimentava este conceito de “República de Banana” ao negar-se em abastecer os navios iraquianos Bavand e Termeh, ancorados nas proximidades do porto de Paranaguá, no Paraná, sob a alegação de que ficaria sujeita a sanções dos Estados Unidos. Foi preciso uma decisão do presidente do STF, Dias Toffoli, que julgou improcedente a decisão da estatal brasileira, ao considerar que os interesses econômicos brasileiros estavam sendo prejudicados se os referidos navios continuassem impedidos de zarpar, com toneladas de produtos brasileiros exportados para o Irã, por falta de combustível.

São inúmeras as recentes demonstrações do governo brasileiro em não medir esforços para receber o apoio dos Estados Unidos. Desde o caso dos navios iranianos, que a Petrobras não queria abastecer com receio de represálias norte-americanas, até a indicação esdrúxula do filho de Bolsonaro para a embaixada dos Estados Unidos, em Washington. Não é apenas sob o aspecto legal. É o moral, é o ético, é o da imagem da republiqueta que projeta o Brasil.

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Sobre o autor

Silênio Vignoli é editor adjunto do jornal O Saquá.