Mangueira dá verdadeira aula de samba e cidadania

Editorial - Dulce Tupy

A primeira vez que subi o morro da Mangueira, no final dos anos 70, fui levada pelo mestre Cartola, até o ponto mais alto onde se encontra um cruzeiro, onde os moradores fazem orações. Era o dia do aniversário do grande mestre, compositor e fundador da escola de samba, daí a grande movimentação de jornalistas na entrada de sua casa, praticamente colada à quadra da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, conhecida como “Palácio do Samba”. Matriz de bambas, Mangueira sempre teve um papel especial na história do samba, berço de forte tradição popular no Rio de Janeiro.

Após publicar meu livro, “Carnavais de Guerra, o nacionalismo no samba”, cuja capa é a foto de notável ritmista da Mangueira, irmão do famoso mestre-sala Delegado, fui convidada a fazer parte do seleto júri do desfile especial das escolas de samba, onde permaneci por cerca de 10 anos, julgando os quesitos de fantasia e samba-enredo entre outros. Assim, tive o privilégio de assistir e julgar os sambas-enredos do carnaval de 1988, que comemorava os 100 anos da Abolição da Escravatura, quando a escola de samba Vila Isabel, com o belíssimo samba “Valeu Zumbi”, levou as arquibancadas ao delírio.

Naquele ano, outro samba, o da Mangueira, também foi marcante. O samba que trazia os versos “Livre do açoite da senzala / preso na miséria da favela” revelava uma profunda reflexão em forma de poesia. Arte é isso! Com um grande poder de transformação… As escolas de samba são pura arte popular que, às vezes, dão lições históricas no Sambódromo do Rio, não por acaso batizado de Passarela do Samba Darcy Ribeiro, mestre da antropologia e da cultura brasileira.

MANGUEIRA CAMPEÃ

Consagrada em primeiro lugar no desfile especial, a Mangueira exaltou heróis esquecidos pela historiografia oficial: o advogado paulista, poeta negro e abolicionista Luiz Gama, a heroína baiana da revolta dos Malês Luíza Mahin, o líder quilombola Zumbi dos Palmares e sua mulher, a capoeirista Dandara, a libertária Adelina Charuteira, líder no Maranhão, o jangadeiro cearense Chico da Matilde, o Dragão do Mar, que se recusava a carregar escravos, ajudando a abolir a escravidão no Ceará, 4 anos antes do Brasil, além de lideranças indígenas como o chefe indígena Sepé Tiaraju, que morreu lutando pela liberdade nos Sete Povos das Missões, entre outros.

Desfile histórico que culminou com bandeiras de Marielle

Mas nada se compara à homenagem que a Mangueira fez a Marielle Franco, a vereadora carioca brutalmente assassinada perto do Largo do Estácio, também um berço do samba. O carro alegórico com os bandeirantes paulistas cobertos de sangue, réplica do célebre monumento modernista no Ibirapuera, em São Paulo, foi também um dos pontos altos da escola de samba que conseguiu a nota máxima possível na apuração: 270 pontos, o que significa notas 10 em todos os quesitos! Assim, a Mangueira conquistou seu 20* título, com o enredo “História para ninar gente grande”, do carnavalesco Leandro Vieira. Mais uma vez fez história na Marquês de Sapucaí.

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Sobre o autor

Dulce Tupy é editora do jornal O Saquá e da Tupy Comunicações.