Demissão de ministro “mentiroso” sacode governo recém-empossado

O ex-ministro da Secretaria Geral da Presidência, Gustavo Bebiano, desabafou: “Minha indignação é ter servido como soldado, disposto a matar ou morrer e, no fim, ser crucificado e taxado de mentiroso” (Foto: Internet/Agência Brasil)

Silênio Vignoli

O governo Bolsonaro passou dos 60 dias sem motivos para comemoração. A divulgação dos áudios do presidente foi no mesmo dia da derrota na Câmara, onde o plenário derrubou o decreto que enfraquecia as regras da Lei de Acesso à Informação (LAI). Os partidos do Centrão isolaram o PSL e se juntaram à oposição para derrotar Bolsonaro. O placar folgado expôs a debilidade da articulação do governo entregue a políticos inábeis e generais que nunca pediram voto. O tombo veio no pior momento para o presidente da República, justamente quando ele se preparava para apresentar no Congresso o projeto da reforma da Previdência. Acendeu o alerta laranja, cor da moda entre os bolsonaristas.

As gravações reveladas para a revista Veja mostram que Bolsonaro mentiu ao negar as conversas com o ex-ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebiano. Agora, a questão é saber se o ex-ministro continuará atirando. Em seu primeiro desabafo, após declarar que foi demitido por Carlos Bolsonaro, filho do presidente, Bebiano foi taxativo: “Minha indignação é ter servido como soldado, disposto a matar ou morrer e, no fim da linha, ser crucificado e tachado de mentiroso”. Disseram a Bebiano que ele foi vítima da “filhocracia” reinante no bolsonarismo.

Em seu segundo desabafo, o ex-ministro expôs detalhes constrangedores da operação montada para comprar seu silêncio. Ele confirmou a oferta de um “empregão” em Itaipu, com salário de R$ 1 milhão, além do convite para escolher entre as embaixadas de Roma e de Lisboa. A briga Bolsonaro-Bebiano foi fabricada para desviar o foco de uma espuma envolvendo o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, e o deputado Luciano Bivar, presidente do PSL, partido de Bolsonaro, em denúncias de plantar laranjais nas eleições para usar muita grana do Fundo Partidário até na campanha do candidato do partido à presidência da República, Jair Bolsonaro.

OUVIRAM

Na semana anterior a do Carnaval, alguém, embaraçado na armadilha de ódio a todos aqueles que não são considerados parte do grupinho que asfixia o exercício do poder, e transparecendo preocupantes vertentes de autoritarismo, veio à tona, de modo até grotesco: o ministro da Educação, o colombiano (não tem ninguém de nacionalidade brasileira suficientemente competente para o cargo, não…) Ricardo Velez Rodrigues, enviou carta, em tom marcial, determinando que as escolas filmassem alunos cantando o Hino Nacional. Nesta carta, o ministro também ordena a utilização, em documentos oficiais, do slogan da campanha eleitoral de Bolsonaro, “BRASIL ACIMA DE TUDO, DEUS ACIMA DE TODOS”, indicando que o governo que denuncia a partidarização das escolas no governo petista, na realidade, quer apenas as escolas com outro partido. O ministro (colombiano) da Educação tentou infiltrar nas escolas do país uma propaganda política do governo Bolsonaro, a que serve, apesar do risco de incorrer em crime de responsabilidade, do qual acabou escapando porque seu abuso de poder foi denunciado imediatamente.

FILHOCRACIA

No princípio até parecia um governo diferente, não apenas pelo conteúdo da reforma da Previdência, coerente e ampla, mas também pelo modo como a equipe econômica competentemente a apresentou, inclusive de forma amistosa em relação à imprensa. Mas muito diferente do governo Bolsonaro que aparece nos áudios da conversa entre Jair Bolsonaro e o então ministro Gustavo Bebiano. Esta conversa exibe um presidente que divide a imprensa entre amiga e inimiga, um presidente que se ocupa muito de assuntos sem qualquer importância e, ainda assim, o faz de maneira frequentemente agressiva e rancorosa, até mesmo com um então ministro que, diante do presidente, jamais parecia uma autoridade nomeada por Bolsonaro para desenvolver as complexas relações com o Congresso.
Nessa mixórdia, com vários estilos de governo, não se pode desconsiderar a vigência de uma filhocracia que manda nomear, manda demitir, o pai presidente obedece e ainda pede “paciência com os garotos”. Está bem nítido que o governo recém-empossado funciona com três núcleos de comando, pela ordem de influência: 1* militar, 2* familiar e 3* civil.

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Sobre o autor

Silênio Vignoli é editor adjunto do jornal O Saquá.