Meio ambiente, corrupção e democracia

Bombeiros foram verdadeiros heróis no cenário da catástrofe em Brumadinho em Minas Gerais. (foto: MG/Divulgação)

Vilmar Berna*

Em dezembro, o superintendente do Ibama-MG, alertou para o risco de 300 barragens inseguras só em MG. O que aconteceu em Mariana, em 2017, se repetiu em 2019 em Brumadinho, e outras bombas relógios permanecem armadas prestes a explodir, como em Pontal, por exemplo, com 220 milhões m³ de água e rejeitos acumulados a montante de populações inteiramente vulneráveis; Santana com 15,7 milhões m³; Itabiruçu, 220,8 milhões de m³; Rio Peixe, 12,2 milhões m³; Conceição, 36 milhões m³; Diogo, 2,4 milhões m³; Porteirinha, 1,3 milhões de M3; Monjolo, 400 mil m³, e assim vai.

Não se aprendeu com os erros, por que é muito mais lucrativo continuar errando, capitalizando os lucros e socializando os prejuízos.

Só nas últimas três décadas, além de Mariana e Brumadinho, e só no estado de Minas, a barragem de Fernandinho, em Itabirito, 1986, causou 7 mortos; a da Mineração Rio Verde, Nova Lima, 2001 – 5 mortos; Cataguases, 2003, danos ambientais e desabrigados; Em Miraí, em 2006, e novamente em 2007, desabrigados; Herculano Mineração, Itabirito, 2014 – 3 mortos.

Enquanto isso, a Vale, responsável pelos desastres de Mariana e Brumadinho, segue dando lucro. Só em 3 meses em 2018, o lucro líquido da Vale subiu 1.780%, distribuindo R$ 5,753 bilhões aos acionistas. Um ano antes, no mesmo trimestre, o lucro foi maior, R$ 7, 1 bilhões! O que é uma multa de R$ 3 mil reais, ou R$ 250 milhões de reais, ou mesmo uma reparação de alguns bilhões? O recado que o Brasil dá a este tipo de investidor é muito claro: venha poluir e destruir a natureza brasileira que aqui a gente garante seus lucros e impunidade.

Toma-lá-dá-cá

A Vale, sozinha, financiou a eleição de 257 políticos, e não por um acaso, o Senado brasileiro e o Parlamento Mineiro, arquivaram ou impediram que avançasse projetos de lei que endureceria regras para mineradoras.
E como papel aceita tudo, os relatórios de sustentabilidade de empresas como a Vale seguem como obras de ficção apenas para os acionistas verem, contando a parte da verdade que lhes interessa e o resto, “é intriga da oposição”.
A corrupção é um dos maiores problemas socioambientais do Brasil, por tudo o que permite que aconteça e que não aconteça. Como a falta de saneamento básico que mata milhões, por exemplo, e uma legislação que entrega o Brasil e seus recursos naturais de mão beijada aos seus exploradores.

Barragens de rejeitos a montante de cidades são a pior solução de engenharia que pode existir e deveria envergonhar qualquer engenheiro que fosse contratado para projetar uma. Hoje, existem filtros prensa e inúmeras outras tecnologias alternativas que transformam “rejeito” em matéria prima para a produção de tijolos, etc.
O problema não é dinheiro. A lava jato está aí de prova de que dinheiro existe, muito dinheiro, ele só não é empregado para a solução dos problemas ambientais brasileiros, mas para criar esses problemas com obras ineficazes, ultrapassadas e inacabadas.

Poderíamos pensar que meio ambiente e sustentabilidade não são prioridade, mas a verdade é que o povo brasileiro e o Brasil é que não são prioridades.

Como dizem, sigam o dinheiro. Quem entra na política pobre e aumenta, de uma hora para outra, seu patrimônio em milhares de vezes, é óbvio que está roubando! Política não é para enriquecer ninguém, política é para cuidar do bem comum.

Não é por que a maioria tenha escolhido a cegueira coletiva que todos tem de se fazer de cegos, surdos e mudos também.

Os que enxergam têm o dever moral de serem incansáveis em denunciar e expor a verdade que está oculta.
E não é por que muitos não querem saber, não querem ouvir, que as verdades não têm de ser ditas em alto e bom som.

E por isso é importante fortalecer as democracias, por que apesar de todos os seus problemas, ainda é o único sistema que permite aos opositores se expressarem, ainda que ninguém queira lhes dar ouvidos.

 

* Vilmar Berna é escritor e jornalista. Gaúcho, nascido em Porto Alegre (RS), vive em Jurujuba, Niterói (RJ), em frente à Baía de Guanabara, numa comunidade de pescadores artesanais. Por sua luta constante pela formação da cidadania ambiental planetária, foi reconhecido pelas Organizações das Nações Unidas (ONU) em 1999, no Japão, onde recebeu o Prêmio Global 500 para o Meio Ambiente. Em 2002, recebeu o título de Cidadão Niteroiense e, em 2003, o Prêmio Verde das Américas, entre outros. Ativista ambiental, participou da fundação de várias organizações da sociedade civil, sem fins lucrativos, dedicado às lutas por um mundo melhor, mais ecológico, pacífico e democrático; entre elas se destacam a UNIVERDE, em 1980, em São Gonçalo, Defensores da Terra, em 1984, no Rio e, em 1996, a REBIA – Rede Brasileira de Informação Ambiental, em Niterói. Desde então é editor da Revista do Meio Ambiente e do portaldomeioambiente.org.br, distribuídos gratuitamente, com objetivo de contribuir na formação de uma nova consciência ambiental no Brasil e no mundo.

 

 

 

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