Fim da dinastia “renanrista” pouco facilitará o governo

O novo presidente do Senado Davi Alcolumbre (DEM-AP) (Foto: Senado)

Ao desistir de sua candidatura à presidência do Senado, numa reunião preparatória tumultuada em que até a eleição para a Presidência da Mesa Diretora foi anulada, devido a uma fraude eleitoral, o senador Renan Calheiros (MDB-AL) abriu caminho para a vitória do candidato do governo, senador Davi Alcolumbre (DEM-AP), marcando o fim da dinastia “renanrista” em que seu grupo político presidiu o Congresso Nacional durante 16 anos, vencendo 9 eleições consecutivas. A eleição de Davi é fruto também da pressão dos demais senadores, inclusive os da oposição (PSDB, PDT, PT E PCdoB, entre outros), por uma renovação naquela Casa, contra a “velha política”, slogan usado como palavra de ordem pelos vencedores.

Isso foi uma consequência inevitável de mensagem resultante do último processo eleitoral quando, dos 54 senadores eleitos, em 2018, apenas 8, identificados com a “velha política” conseguiram se reeleger. É justo ressalvar que Renan Calheiros resistiu a essa varredura no Senado, enquanto figuras como o ex-presidente Eunício Oliveira (MDB-CE), Romero Jucá (MDB-RR) e Edison Lobão (MDB-MA) foram derrotados nas urnas e perderam o foro privilegiado.

Davi X Golias

Portanto, 46 senadores eleitos no último pleito são novatos, escolhidos pelo discurso que fizeram na campanha eleitoral de 2018, propondo a renovação, dentre os quais Davi Alcolumbre, novo presidente do Senado, que acaba de ser eleito, derrotando por larga margem Renan Calheiros, carimbado como símbolo da “velha política”, que precisa ser solenemente sepultada. Não se pode, contudo, desconsiderar que Renan também teve que enfrentar uma operação montada pelo Quartel General, antigo Palácio do Planalto, utilizando Onyx Lorenzoni, ministro da Casa Civil, como o articulador da candidatura de Davi Alcolumbre, pinçado no chamado “baixo clero” para funcionar como o candidato anti-Renan.

Pouco conhecido, o novato Davi, do Amapá – chamado de Golias por Renan, no calor dos debates – uma vez escolhido como candidato do governo passou a contar com um quase imbatível cabo eleitoral: o Diário Oficial. Pelo que se viu, às vésperas da eleição no Senado, suas promessas de cargos e vantagens eram convincentes.

Pode atrapalhar

A eleição no Senado, além dos condenáveis gestos de beligerância por parte dos representantes da dinastia “renanrista” e do próprio candidato, o ex-presidente Renan Calheiros, teve outras circunstâncias marcantes como a pressão das redes sociais que já havia atuado de modo contundente no pleito de 2018 e repetiu a participação, de forma intensa e inédita, na disputa legislativa. Apesar da eleição de aliados para comandar o Senado, o governo vai precisar de uma articulação mais eficiente para formação de uma ampla base parlamentar, visando a votação de propostas polêmicas, que alteram a Constituição, como a Reforma da Previdência.

Os tumultos na eleição de Davi Alcolumbre deixaram fraturas importantes no Senado, principalmente no grupo de Renan Calheiros. Mesmo com a derrota, Renan, na visão de auxiliares do presidente da República, tem influência suficiente sobre o plenário do Senado para definir o rumo das votações e atrapalhar a vida do governo.

Parte da equipe do Executivo defendia, reservadamente, a vitória de Renan para o comando da Casa, por considerá-lo portador de mais instrumentos para garantir a aprovação da Reforma da Previdência. Nos últimos dias que antecederam a eleição para a mesa do Senado, Renan passou a elogiar o presidente Jair Bolsonaro, que estudava planos para dizimá-lo. Na véspera da eleição no Senado, segundo Renan, Bolsonaro ligou do hospital para desejar-lhe boa sorte.

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Sobre o autor

Silênio Vignoli é editor adjunto do jornal O Saquá.