Palácio do Planalto pode virar um Quartel-General

O capitão Jair Bolsonaro (Foto: Tania Rego – Agência Brasil)

Com erros, alguns acertos e muitas dúvidas começou a escalação do time que vai jogar sob o comando do capitão Bolsonaro, onde aparecem alguns políticos, eventuais especialistas nas respectivas áreas e uma expressiva predominância de militares, sobretudo generais do Exército. A escolha do general Carlos Alberto dos Santos Cruz para a Secretaria de Governo do futuro presidente consolidou a inédita marca da presença militar na próxima administração do país. Santa Cruz junta-se aos generais da reserva Hamilton Mourão (vice-presidente) e Augusto Heleno (Segurança Institucional) na equipe que trabalhará no Quartel-General comandado por um capitão reformado que chegou à Presidência da República com ampla maioria de votos dos brasileiros, transparecendo uma espécie do que se poderia chamar de democracia militar, mesmo que, por enquanto, só teoricamente. O principal desafio que um militar enfrenta em cargos civis é compreender que a voz de comando não repercute tão estridente quanto dentro do quartel. Lá, nada é um pedido; tudo é uma ordem.

TAMANHO DA CADEIRA

Apesar de especialistas garantirem que essa inédita marca da presença de militares, no governo do capitão Bolsonaro, não autoriza qualquer consideração induzindo à semelhança com o poder dos palacianos durante a ditadura, lembrando que os generais do futuro presidente comandaram tropas das Nações Unidas no Haiti, em Angola e no Congo por serem de outra cepa, já que viveram o período de profissionalismo e pacificação política dos quartéis, não se pode esquecer que, há três anos, depois de um pronunciamento político, o vice de Bolsonaro, general Hamilton Mourão, perdeu a prestigiosa chefia de uma tropa do sul. Ele mesmo reconheceu, citando o ex-comandante Enzo Peri, que “cada um tem que ter a exata noção do tamanho de sua cadeira”, acrescentando que ele extrapolara o tamanho da sua. A presença de militares no âmago do Planalto para um governo democraticamente eleito pelo povo é um jogo jogado, desde que cada um tenha a exata noção do tamanho de sua cadeira.

MEMÓRIA DOLOROSA

É necessário ressaltar que, por todos os motivos, a geração nascida na década de 1940 ficou traumatizada com os militares no poder, a partir de 31 de março de 1964, e transmitiu toda essa raiva, todo esse medo e antagonismo às gerações seguintes por associá-la à memória dolorosa da ditadura militar. Agora mesmo, está completando 50 anos (13 de dezembro, uma sexta-feira, de 1968) a decretação do Ato Institucional número 5 que, em nove páginas subscritas por 17 homens, nove militares e oito civis, meia dúzia de considerandos, 12 artigos, dez parágrafos e oito itens selaram e aprisionaram por dez anos o destino da sociedade brasileira. Um dia que durou dez longos anos até que fosse revogada a vigência dessa barbaridade decretada pela ditadura militar. Outros tantos anos para que fosse aprovada uma nova Constituição. Mas suas profundas feridas, como as dos grilhões dos tempos escravistas, ainda estão cicatrizando lentamente em muitas gerações. Foram tempos sombrios para a democracia. As oposições moderadas tiveram que lutar no alto de uma corda bamba permanente. As radicais foram trucidadas pela adoção da tortura como política de Estado.

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