Tsunami varre o país sacudindo incertezas

Bolsonaro, o presidente eleito (Foto: Facebook)

A eleição que acabamos de vivenciar foi a mais apaixonada e sofrida das últimas décadas. Esta foi a oitava eleição presidencial desde o fim da ditadura, mas nenhuma foi marcada por tanta incerteza. Nenhuma refletiu tanta dúvida sobre o futuro da democracia no país, sobretudo em relação aos candidatos que, desde o início da campanha, despontavam nas pesquisas como favoritos, inclusive em relação à disputa de um segundo turno. O candidato que começou na frente das pesquisas foi preso, acusado de vários processos por corrupção, e por isso, impedido de concorrer. O candidato rival, um outsider de extrema direita que se filiou a uma legenda de aluguel (PSL), no limite do prazo legal, levou uma facada na barriga e foi hospitalizado. E aí as campanhas dos dois principais candidatos passaram a ser comandadas da cadeia e do hospital.

BOLSONARISMO

O que tornou esta eleição muito apaixonada e sofrida foi a total falta de foco dos nossos reais problemas. O acirramento entre os candidatos não se deu em torno do que nos aflige, mas por uma agenda artificial, fora de tempo e lugar. Mais uma vez, a grande maioria dos brasileiros não votou a favor de nada. Alienadamente votou apenas contra. Contra o lulismo e o petismo, inaugurando mais uma fase da República Brasileira: o bolsonarismo que, ideologicamente, ninguém tem a menor noção do que seja. As participações de Bolsonaro nas entrevistas e sabatinas cristalizaram o voto dos que já estavam com ele. O aumento crescente nas pesquisas foi ocorrendo a partir da facada. É bolsonarismo afirmar que a facada não favoreceu a candidatura do próximo presidente. Ajudou e muito. Até o final da campanha, além da condição da vítima, Bolsonaro livrou-se dos debates e da exposição aos questionamentos em público pelo recorrente “Constrangimento em consequência da colostomia”. Daí decorrem as incertezas. Qual a posição do futuro presidente sobre tendência, Reforma trabalhista, enfim…

CONSERVADORISMO

Jair Bolsonaro presidente, assim desejaram 58 milhões de brasileiros que impulsionavam pelas elites, fazendo-o atingir também os rincões do Brasil e os estratos mais numerosos da sociedade. E com 55% dos votos válidos obteve uma vitória legítima que só um sistema democrático proporciona. Bolsonaro ganhou com mais de 10 milhões de votos de diferença. A vantagem, menor que a de Lula, é significativa, mas não se pode esquecer que Bolsonaro foi eleito com um índice recorde de rejeição, não conseguindo alcançar a maioria dos votos totais. Tanto Bolsonaro quanto a esquerda têm que providenciar, com urgência, uma autocrítica, pois estão perdendo a disputa de ideias na sociedade, abrindo espaço para um conservadorismo que acaba de se tornar eleitoralmente majoritário.
Não se pode deixar de ressaltar, no entanto, que outros 47 milhões de eleitores disseram: “Ele não!”, estes somados aos 43 milhões que não votaram, anularam o voto ou votaram em branco, formam uma inegável maioria de 90 milhões de brasileiros que não sufragaram o nome do próximo presidente da República. Para esses 90 milhões de brasileiros – e para grande parte do restante do mundo – o 38° presidente do Brasil é motivo de apreensão e incertezas.

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Sobre o autor

Silênio Vignoli é editor adjunto do jornal O Saquá.

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