André Borges, de preso comum a poeta político

André Borges foi cofundador do Sindicato dos Escritores

A trajetória de André Borges é, no mínimo, instigante. Preso em abril de 1958, aos 25 anos, por assalto à mão armada, escapou de ser assassinado pelo temível Esquadrão da Morte. Ao todo, foram 21 anos de reclusão. André cumpriu pena na Penitenciária Lemos de Brito, considerada então um estabelecimento penal modelo, mas com uma peculiaridade: negros retintos eram poucos. E, posteriormente, na prisão da Ilha Grande. Durante os anos passados na prisão, André Borges tornou-se escritor, tendo publicado os seguintes livros: Um repórter, da Ilha Grande ao Poder; Eterno Amanhã – Poemas da prisão; A Fuga; A Viagem.

Após cumprir 21 anos de prisão, André ascendeu à condição de preso político, tendo sido solto no período da anistia(1979), quando ajudou a fundar o PDT (Partido Democrático Trabalhista), tendo participado dos dois governos de Leonel Brizola. Neste período, André Borges foi um dos fundadores do Sindicato dos Escritores do Brasil, ao lado dos renomados Darcy Ribeiro, José Louzeiro e outros escritores, poetas e intelectuais famosos. Escritor, jornalista e militante do movimento negro, André Borges, lançou dois livros A Fuga e A Viagem, rememorando o cinquentenário da cinematográfica fuga da Penitenciária Lemos Brito, em 26 de agosto de 1968, empreendida por ele e mais 9 companheiros, fato que deu outros contornos à luta armada no Brasil, e do nefasto Ato Institucional nº 5, redigido pelo então ministro da Justiça Luís Antônio da Gama e Silva e emitido pelo ditador Artur da Costa e Silva, em 13 dezembro de 1968.

 

PROSCRITO

Eu
Um proscrito
um judeu talvez
outro CHESMAN não serei
os anos e as grades
não mataram em mim anseios
de outros mundos conquistar.
Não sou pássaro cativo.
Longe navegam minhas esperanças,
do mar-de-livros que naveguei
trago mensagens dos sábios
busco o sol
terra fértil
onde lançar ideias nascidas
na estufa concrética do meu degredo
Da rua me ferem os tímpanos
gritos da multidão
que assiste em festa
ao alvorecer da nova era!
– Bastilha! Bastilha!
Nas pedras de tuas ruínas
esculpimos
o MONUMENTO ETERNO
dos proscritos
ali estão petrificados
angustiosos gritos
Triturastes homens e mulheres
foi tudo em vão porque
ruíste ao impacto
de seus libertários gritos

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