Dos candidatos mais rejeitados poderá sair o futuro presidente

Jair Bolsonaro

Fernando Haddad

Ciro Gomes

Condenado em segunda instância por corrupção, em janeiro, e preso em abril, Lula, que contava com a preferência de um terço do eleitorado, viu-se incurso na Lei da Ficha Limpa. E, embora estivesse legalmente fadado a ter o registro de sua candidatura negado, continuou mantendo a coreografia de quem pretendia disputar, a qualquer custo, a eleição presidencial. O enredo é mais do que conhecido. O ex-presidente voltou a se deparar, nesta eleição, com o desafio de guindar mais um poste, desta vez, ao Palácio do Planalto. Não chega a ser um poste novo porque Fernando Haddad já fora guindado à Prefeitura de São Paulo, em 2012. O que não conseguiu, com sucesso, repetir em 2016, tentando reelegê-lo e sendo derrotado ainda no primeiro turno. O que se temia no PT, agora, é a transferência de votos tornar-se mais difícil, especialmente no Nordeste, onde hoje se concentra a grande massa de eleitores de Lula.

Geraldo Alckmin

Com isso, a decisão demorou, mas, enfim, Haddad entrou na disputa e tem um bom espaço para o crescimento, que terá de ser veloz, diante do curto espaço de tempo disponível até a eleição. O poste teria de dobrar o rendimento de sua performance, de modo a superar Ciro Gomes, seu principal adversário, com quem divide os votos da esquerda por uma vaga no segundo turno com Jair Bolsonaro. E não deu outra. O crescimento expressivo do candidato do PT, Fernando Haddad, que praticamente dobrou sua votação entre duas recentes pesquisas do Ibope e a manutenção da tendência de alta de Bolsonaro, mesmo que dentro da margem de erro, levam a crer que os dois disputarão o segundo turno, possivelmente acirradíssimo, com Bolsonaro e Haddad tecnicamente empatados. Ciro Gomes deslocou-se do grupo que sonhava estar no segundo turno, mas, logo em seguida, conseguiu reduzir sua distância para Haddad. Ciro, então, reaproximou-se de Haddad, enquanto Alckmin e Marina continuaram em queda. Essa tendência, revelada tanto pelo Ibope quando pelo Datafolha, faz com que o voto útil tenha um rumo mais dirigido, seja para Ciro, Haddad e até mesmo para Bolsonaro. A eleição deste ano poderá ser decidida entre os dois candidatos (Bolsonaro e Haddad) que têm a maior rejeição entre todos.

Marina Silva

A persistir a tendência de queda de Marina é previsível que as amplas bases de apoio dos tucanos e da própria Marina se dispersem em busca de uma candidata mais promissora. Seria o caso da maioria dos eleitores migrarem para Bolsonaro, que continua crescendo, consolidando sua posição no segundo turno. Mas, certamente, Ciro poderá ganhar com os chamados “votos úteis” provenientes dos tucanos de esquerda ou que não querem ver o PT de volta ao poder e dos eleitores de esquerda de Marina.

Preocupações Remanescentes

O clima pré-eleitoral de agora não está imune às divagações sobre os riscos de uma ruptura na normalidade democrática. Afinal de contas, não faltam comportamentos de muitos atores sociais e políticos transparecendo indícios preocupantes desses desvios. Como, por exemplo, o de candidatos que lançam desconfiança sobre a lisura do pleito, a começar pelas urnas eletrônicas, e de comandantes militares e oficiais reformados que se infiltram em temas institucionais com ameaças implícitas de rompimento da ordem democrática, além de políticos que debocham das instituições e pregam as variadas formas de desobediências legais, como se fossem os mantenedores da ordem.

Desde o fim da Guerra Fria, a maioria dos colapsos democráticos foi causada não por generais e soldados, mas por governos eleitos. Lideranças políticas subverteram instituições democráticas na Venezuela, no Peru, na Nicarágua, na Humgria, na Polônia, nas Filipinas, na Rússia, na Turquia e na Ucrânia. Sintomaticamente, o retrocesso democrático moderno tem começado nas urnas. Embora demagogos e autoritários não sejam capazes, por si sós, de destruir as democracias, garantem alguns especialistas que são os partidos políticos estabelecidos e as escolhas que eles fazem, quando confrontados com demagogos e autoritários, que decidem se as democracias devem sobreviver. Os sistemas políticos precisam de partidos que coloquem valores fundamentais acima do ganho políticos imediato e de eleitores que se posicionem como cidadãos vigilantes.

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Sobre o autor

Silênio Vignoli é editor adjunto do jornal O Saquá.