Nem Corrupção prejudica o favorito nas pesquisas

Acrise brasileira, na geral, e a campanha presidencial, em particular, estão revelando preocupante escassez de lideranças com visão de longo prazo e capacidade de transmitir confiança, através do exemplo, um problema que ainda vai perdurar por muito tempo, transformando-se num desafio para os eleitores nos próximos pleitos. Essa conclusão, que pode ser definida como inquietante, resume o cenário traçado pela consultoria Macroplan, especializada em planejamento, gestão e cenários prospectivos. Aliás, a análise da consultoria vem batendo nesta mesma tecla há bastante tempo. A pérola de legitimidade dos políticos – independentemente das vinculações partidárias – tornou-se endêmica. Nomes antes promissores foram varridos do tabuleiro político e não há, no horizonte, novos líderes despontando.

Como se não bastasse o futuro comprometido deste cenário, o que poderia explicar o paradoxo de a corrupção ser hoje a maior preocupação do povo brasileiro e o ex-presidente ser o candidato preferido deste mesmo eleitor? Isso é constatado por sucessivas pesquisas dos mais variados institutos. Estudos do cientista político Carlos Pereira, da Fundação Getúlio Vargas, baseados em pesquisa de opinião experimental, realizada em parceria com os professores Rafael Goldzmidt, da FGV, e Lúcia Barros, da USP, mostram como funciona a mente do eleitor, influenciado por questões ideológicas e também por cálculos de custo/benefício.

Países Pobres

Claro que a falta de informação sobre o envolvimento do candidato em corrupção é um fator importante nessa decisão, mas o gasto em políticas públicas modera o impacto negativo de corrupção na probabilidade de reeleição, especialmente no caso de países pobres. Mesmo eleitores informados podem votar em governantes supostamente corruptos se eles esperam receber benefícios materiais que outros partidos e candidatos não podem garantir. Eleitores são mais propensos a escolher candidatos desonestos quando eles compartilham da mesma ideologia. Esse efeito é mais predominante quando ideologias econômicas e sociais são congruentes. É inexplicável, mesmo levando em conta que parcela maciça do contingente de eleitores que vota assim seja constituída por analfabetos, brasileiros de baixa instrução e faixa de renda de até um salário.

Imprevisível

Apesar de mostrar Lula ainda em primeiro lugar nas pesquisas do fim de agosto/início de setembro, uma pesquisa de manifestação espontânea do Datafolha revela que o número de indecisos, brancos e nulos está atingindo 46%. Isto sugere que parcela significativa de eleitores já começou a buscar alternativas, após a condenação do ex-presidente. Porém, num cenário sem Lula, metade dos brasileiros com baixa instrução está sem candidato. Voto nulo, em branco ou indeciso é alto entre mulheres e na faixa de renda até um salário. Chegamos à fase final de um período eleitoral, surpreendentemente, com uma taxa muito elevada de indecisos e também de pessoas dizendo que não votar em ninguém. Há um desgosto, uma insatisfação generalizada com a classe política.Os debates, quem sabe, poderão reativar, pelo menos parcialmente, o interesse pelas eleições. Os cientistas políticos consideram que a eleição deste ano é anormal e acontece em um tempo de mudanças e de inusitados, daí o porque o resultado ainda é imprevisível.

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Sobre o autor

Silênio Vignoli é editor adjunto do jornal O Saquá.