Mais uma eleição na base do “é dando que se recebe”

Silênio Vignoli

A espúria negociação de uma aliança para obter apoio do Centrão, visando principalmente o ranking de exposição na TV, gerou um forte impulso, medido em tempo de propaganda eleitoral, ao candidato tucano Geraldo Alckmin, que vai desfrutar de 41% do total do horário político, com dois blocos diários de 5 minutos e 12 segundos cada um, totalizando 12 minutos e meio diariamente. Além das cotas do PSDB, Alckmin contará com as do DEM, do PP, do PR, do PRB e do SD, fazendo o maior lance de um candidato antes do período de Convenções.

Como o momento da política brasileira é de baixo nível ético, as legendas que compõem um acordo como este o fazem sonhando com as já conhecidas moedas de trocas, como cargos e acesso a verbas públicas, através das licitações suspeitas que alimentam este viciado balcão de negócios. Considerando que o horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão visa um acesso democrático do eleitor a todos os candidatos, uma aliança política oferecendo a maioria esmagadora deste horário eleitoral para um só candidato é tudo, menos um critério democrático.

FISIOLOGISMO

Grupo suprapartidário de centro-direita, criado no final do primeiro ano da Assembleia Nacional Constituinte de 1988, o Centrão nasceu marcado por uma frase, até hoje sinônima de fisiologismo: “É dando que se recebe”. Foi o deputado paulista Roberto Cardoso Alves, apelidado de Robertão, já morto, o autor desta releitura da famosa frase de São Francisco de Assis. O Centrão, da época de sua fundação, reunia lideranças conservadoras do PFL (hoje DEM), do PMDB (agora MDB) e do PTB, não necessariamente as direções partidárias dessas legendas, mas os políticos de peso dentro do Congresso, como Luiz Eduardo Magalhães, filho de ACM, e de Ricardo Fiuzza do PFL, Gastone Righi, do PTB, Daso Coimbra, do PMDB, partido que se dividiu entre os que apoiavam o governo Sarney e os que seguiam o presidente da legenda na época, Ulysses Guimarães, que semeava na Constituição Cidadã sua futura campanha à presidência da República, em 1989, na qual foi cristianizado, chegando em sétimo lugar com apenas 4% dos votos.

Essa divisão do então PMDB, o partido hegemônico, determinou o fim da Aliança Democrática entre o PMDB e o PFL, que dava sustentação à chamada “Nova República”. Da mesma maneira que, agora, os líderes do Centrão procuraram se afastar do Palácio do Planalto como fizeram em 1989, aproximando-se de Fernando Collor que se elegeu presidente. Agora, mais uma vez, o MDB deve continuar com uma bancada poderosa, fazendo valer um velho axioma da política brasileira: o MDB não consegue eleger um presidente da República, mas nenhum presidente governa sem o MDB.

DESAMPARADOS

Um dos dados mais relevantes das pesquisas qualitativas é o vácuo político desenhado pela maioria absoluta de eleitores que não se sente representada pela oferta de partidos e candidatos. Este sintoma vem-se acentuando desde junho de 2013. Nada menos que 64% dizem que não tem partido. O eleitor está desamparado, define o diretor do Datafolha, Mauro Paulino. O PT continua sendo a legenda com o maior contingente de apoiadores, o que acontece historicamente desde 1999, quando superou o então PMDB, hoje MDB. Na pesquisa de agora, o PT conta com 18% de preferência do eleitor e os demais partidos patinam em torno de 1%. O MDB tem 5% e o PSDB 3%.

A vantagem comparativa do PT é grande, mas o fato é que todos os partidos estão devendo aos eleitores. E como estão devendo… O que costuma prejudicar o PT são aqueles períodos de sucessivas denúncias de corrupção, mais do que aquela cínica radicalização do discurso. Em agosto de 2016, com o fim do processo de impeachment da então presidente Dilma, o índice do PT levou um grande tombo, caindo para 9% de preferência e o total de eleitores sem partido atingiu o recorde de 75%. A mesma pesquisa do Datafolha revela que 53% dos entrevistados querem Lula na cadeia e 37% consideram que ele recebe um tratamento igual ao de outros tantos criminosos na área política, enquanto 22% acharam que ele está recebendo um tratamento de presidiário privilegiado.

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Sobre o autor

Silênio Vignoli é editor adjunto do jornal O Saquá.