A revolta de escravos na Fazenda Ipitangas

Editorial - Dulce Tupy

A grande referência histórica de Saquarema é, sem dúvida, o livro de Darcy Bravo “Minha Terra, Saquarema”, uma obra póstuma, editada por uma pequena gráfica em Niterói que publicou cerca de 50 livros apenas, hoje considerados uma raridade. Tudo, ou quase tudo, que se sabe sobre a origem de Saquarema está lá, nas páginas. Desde a passagem do navegador português Martin Afonso de Souza em março de 1531 na Praia da Vila, onde havia o Morro do Sambaqui (atrás do atual prédio dos Correiros), situado próximo à Praia de Barra Nova (não é Barra Nova o bairro depois do Boqueirão), hoje Prainha, aos pés do penhasco da igreja de N. Sra. de Nazareth. O livro foi publicado em 1979 e bem mereceria uma reedição, tamanha sua importância histórica. Segundo Bravo, alí, na “Barrinha”, os brancos portugueses teriam encontrado o chefe indígena Sapuguaçu; abasteceram suas naus com água, lenha e frutos nativos de “Socó-Rema”, nome dado pelos índios à lagoa onde viviam bandos de socós, tipo de ave pernalta que ainda sobrevive, inclusive na beira da praia.

A área de Saquarema, incluída na Capitania Hereditária de São Vicente, não foi inicialmente ocupada pelos colonizadores que aqui chegaram em 1594, quando padres da Ordem do Carmo receberam doação de sesmarias próximas a Ipitangas, onde construíram o Convento de Santo Alberto. Séculos depois, o príncipe Maximiliano Wied Newied, vindo do Rio de Janeiro, passando por Niterói e Maricá, também cruzou Saquarema “habitada principalmente por pescadores” e pernoitou na “Fazenda do Pitanga”, em uma grande casa de farinha “deslumbrantemente iluminada pelo clarão da lua”, como registrou o príncipe que coordenou uma expedição científica ao Brasil, entre 1815 e 1817.

CENÁRIO DA REVOLTA

Na verdade, o príncipe naturalista passou dias em Saquarema, fazendo pesquisas de campo, que serviram de base para o livro publicado mais tarde na Europa: “Viagem ao Brasil”. Segundo Bravo, a Fazenda Ipitangas era propriedade do Dr. Francisco Macedo Freire de Azeredo Coutinho, “senhor de engenho, doutor em Leis e capitão-mór na velha Capitania de Cabo Frio”, cenário de uma revolta de escravos, sob a chefia do “preto” Bandeque. A revolta destruiu roças e incendiou canaviais, obrigando os proprietários a fugir para Mataruma, hoje Araruama. “Ao som do baticum de latas e tambores e aos gritos de ‘é tão bom como tão bom’, os escravos ocuparam a confortável sede da propriedade agrícola. Realizaram os mesmos, nesse dia, grandes festividades, destacando-se a dança denominada ‘sairú’.”

PAU DE BANDEQUE

Para dominar a revolta foi preciso a intervenção da polícia. “Para isso vieram de Niterói (antiga Praia Grande) muitos soldados de cavalaria que ao chegarem à Fazenda Ipitangas normalizaram logo a situação e prenderam os pretos. Acompanhados por escoltas, vieram estes para a vila de Saquarema, aqui chegando foram-lhes aplicados bárbaros castigos. Eram amarrados em grupos de três num pelourinho que há pouco tempo existia no lugar conhecido pelo nome de Ponta do Capim, sendo aí justiçados”. Hoje praticamente não existem traços destes fatos históricos.

Mas o pesquisador Darcy Bravo encontrou na folha 6, do livro de atas da Câmara Municipal de Saquarema, um requerimento de 8 de fevereiro de 1872, do vereador Ribeiro de Souza, mandando derrubar o pelourinho então intitulado “pau de Bandeque”, para não servir de “testemunho às gerações vindouras do atraso da nossa antiga civilização”. O Brasil caminhava lentamente rumo à Abolição da Escravatura, promulgada há 50 anos atrás, em 13 de maio de 1888, através da luta de resistência dos escravos nas fazendas, nos quilombos e nas revoltas. Na conservadora sociedade imperial, a escravidão começava a ser antecipada por de leis como a Eusébio de Queirós, de 1850, que proibiu o tráfico negreiro, a do Ventre Livre, de 1871, que concedia liberdade aos filhos de escravas, e a dos Sexagenários, que libertava idosos, os poucos que conseguiam atingir a idade de 60 anos e sobreviver.

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