1968, o ano que não acabou e continua sendo até hoje

Editorial - Dulce Tupy

Quando o jornalista e escritor Zuenir Ventura publicou o livro “1968, o ano que não terminou” talvez não soubesse a dimensão profética do título que descreveu um dos períodos mais emblemáticos da ditadura civil e militar que se instalou no Brasil com o Golpe de 1964. Hoje membro da Academia Brasileira de Letras, Zuenir continuou suas profecias em outros livros publicados, fosse sobre o líder Chico Mendes, ambientalista assassinado no Acre, na Amazônia, fosse sobre o Rio de Janeiro, esta cidade partida, com um terrível fosso entre as classes sociais representadas pelos bairros ricos e as pobres favelas.

No Brasil, 1968 foi o ano das grandes manifestações que se iniciaram com a morte do estudante secundarista Edson Luís, na porta do restaurante estudantil Calabouço, no Rio, assassinado pelo polícia, e que culminaram com a famosa Passeata dos Cem Mil que por sua vez foi um dos motivos que levaram à decretação do famigerado AI-5 (Ato Institucional n° 5), que inaugurou um período de trevas, radicalizando as arbitrariedades cometidas pelo regime militar.

PINGOS DE SANGUE

Eu era uma jovem de 20 anos que chegava à universidade cheia de esperanças. Ao pisar na calçada em frente à Escola Nacional de Belas Artes (ENBA), na esquina da Av. Rio Branco, na manhã do dia 29 de março, encontrei um grupo de manifestantes com cartazes denunciando o assassinato do jovem Edson Luís, que ocorrera no dia anterior. O corpo ainda quente do jovem estudante nordestino, que se alimentava no restaurante Calabouço, inaugurado no governo Getúlio Vargas, foi transportado pelo colegas desde o Castelo, onde funcionava, até a Cinelândia, onde foi velado, na então Assembleia Legislativa.

Por onde passou o corpo, deixou marcas de sangue no chão, como nas escadarias da Santa Casa, na entrada da Embaixada dos Estados Unidos e também na porta da ENBA. Isolados com barbantes para impedir que alguém pisasse neles, os pingos de sangue pareciam gritar! Eram uma prova eloquente de que algo muito grave acontecia naquele Brasil que fervia sob as palavras de ordem dos estudantes – “Abaixo da ditadura!” – que se ouvia em milhares de bocas unidas na Cinelândia. O velório realizado no saguão da Assembleia Legislativa, com milhares de manifestantes, demonstrava o grau de indignação dos estudantes, apoiados por grande parte da população do Rio.

A FERRO E FOGO

O cortejo fúnebre de Edson Luís foi a pé, do Centro da cidade até o distante bairro de Botafogo, onde chegou no final da tarde no cemitério São João Batista, de noitinha, com rápidas paradas onde se realizavam pequenos comícios, como na frente do prédio da União Nacional dos Estudantes (UNE), na Praia do Flamengo, mais tarde demolido pelos militares. Três meses depois, em junho, após vários confrontos entre estudantes e militares, houve a célebre Passeata dos Cem Mil, que uniu as forças progressistas do país, entre eles artistas, músicos e atores, que deram grande visibilidade ao ato político.

O tempo passou, mas as cicatrizes ainda doem na alma de quem viveu aqueles dias históricos. A morte de Edson Luís, hoje comparada à da líder feminista, negra, favelada e lésbica, vereadora Marielle Franco, sacrificada por seus algozes no mesmo fatídico mês de março, são episódios distintos, mas que levam ao quadro macabro que vivemos ainda hoje neste país sem rumo, onde forças do atraso se projetam como sombras sobre um destino grandioso que poderia ser e não foi. O Brasil do futuro está sendo feito aqui e agora, marcado a ferro e fogo, no presente de cada cidadão.

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Sobre o autor

Dulce Tupy é editora do jornal O Saquá e da Tupy Comunicações.