O mundo parou acompanhando a eleição do seu novo presidente

Opinião - Silênio Vignoli

A vitória de Donald Trump na eleição para indicar o sucessor de Barack Obama na Casa Branca causa uma ressaca de perplexidade em boa parte do mundo. Colocando-se à margem do sistema político, o magnata do setor imobiliário conseguiu atrair o voto e a esperança de milhões de americanos insatisfeitos, a maioria dos quais afetada pelos efeitos econômicos e sociais da crise financeira eclodida em 2008. Foi a vitória de um líder impulsivo e instintivo, cuja fortuna cresce a cada minuto, provocando um choque que alastra medo e incertezas. Trata-se do triunfo de um discurso populista impregnado por um nacionalismo suspeito, idêntico àquele que deu origem ao fascismo hitlerista, em meados do século passado, e que muitos julgavam já sepultado em nações desenvolvidas como os Estados Unidos.

O panorama que se abre com a vitória de Trump não é nada auspicioso, levando-se em conta as promessas de campanha. Estão ameaçados, por exemplo, o Acordo de Paris sobre o clima; a reaproximação dos EUA com Cuba; e o pacto nuclear com o Irã, para citar apenas três iniciativas históricas do legado de Barack Obama. Porém, talvez, o aspecto mais preocupante nisso tudo seja a mentalidade nacional populista de um Trump fascista, que tem forte identificação com o líder russo, Wladimir Putin, responsável pela deflagração daquela pirotecnia de e-mails, tentando incriminar Hillary.

Trump compôs sua retórica eleitoral num eixo duplo: prometendo devolver a grandeza perdida aos EUA e culpando agentes externos pelos infortúnios dos país. Assim, pela lógica trumpista, a globalização eliminou empregos dos americanos e os imigrantes hispanos aumentaram o problema das drogas e da violência, enquanto as comunidades muçulmanas abrigavam terroristas, entre outros discursos xenófobos e racistas. À sombra de Trump ressurgem aqueles grupos políticos extremistas de outrora, que andavam enfraquecidos, como a Ku Klux Klan e similares. Apesar de um resultado apertado nas urnas, a vitória dos republicanos também garantiu maioria nas duas Casas do Congresso e na Suprema Corte: foi barba, cabelo e bigode. E, assim, enterra-se o sonho democrata de uma Suprema Corte com maioria progressista, para analisar questões como aborto, direitos LGBT e até a descriminalização da maconha, entre outras.

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Sobre o autor

Silênio Vignoli é editor adjunto do jornal O Saquá.