A religiosidade e os festejos populares em Saquarema

O artista plástico Nelson Sorama com a equipe da subsecretaria de Cultura fazendo o belíssimo tapete de sal, conforme a tradição que ele costuma manter todos os anos (Foto: Agenlo Quintela

O artista plástico Nelson Sorama com a equipe da subsecretaria de Cultura fazendo o belíssimo tapete de sal, conforme a tradição que ele costuma manter todos os anos (Foto: Agenlo Quintela

O mês de junho é repleto de festas religiosas, dedicadas a Santo Antônio, São João e São Pedro. É quando o município de Saquarema conhece os mais belos festejos populares, as chamadas festas “juninas”, com missa, procissão, leilão de prendas, barraquinhas com comes e bebes típicos, dança da quadrilha, fogueira e inúmeras brincadeiras que já foram tantas e hoje estão se extinguindo a cada ano. Mas a essência das festas continua, com o cheirinho de milho quente, canjica, caldo verde… São os sabores do inverno que chega, pedindo vinho, caipirinha, cerveja.

Este ano mais uma vez a festa de Santo Antônio, no centro de Bacaxá, cumpriu seu dever de reunir não só a comunidade católica, mas os moradores de vários bairros e visitantes que vêm de longe apreciar os fogos de artifício, participar da procissão, da festa. No dia de São João, outra festa de menor dimensão se realiza, desta vez no centro de Saquarema, na rua ao lado da Prefeitura. A grande festa de São João em Sampaio Corrêa, onde várias quadrilhas disputavam qual se apresentava melhor diante do público, se acabou. Hoje, praticamente só restou a quadrilha Asa Branca, do marcador João Campelo, que ganhou diversos troféus em campeonatos disputados em Saquarema e em outros municípios da Região dos Lagos e até do Rio.

Depois vem a festa de São Pedro que, por ser o padroeiro dos pescadores, tem um significado muito forte para o município, situado entre a lagoa e o mar, que foi uma antiga aldeia de pescadores, antes de se destacar na produção agrícola e industrial. A procissão de barcos, em homenagem a São Pedro, na Lagoa de Saquarema é um dos momentos mais emocionantes da festa que culmina na Praça dos Pescadores, toda reformada e re-inaugurada recentemente. Estas festas fazem parte da identidade cultural de Saquarema. São festas que refletem nossa maneira de ser, nossa história, nossas raízes. Por isso devem ser preservadas, como patrimônio cultural imaterial do município. Assim como também outras festas religiosas que ocorrem anualmente.

Raízes profundas

É o caso do Corpus Christi que, com seus tapetes de sal, resgatam o brilho da arte popular exposta na rua. Com colorido forte e imaginação, os tapetes contam histórias da fé, da religiosidade e dos membros que compõem a sociedade católica, predominante em Saquarema. Várias instituições, mesmo não sendo católicas, fazem questão de participar da festa, confeccionando seu próprio tapete de sal, por onde a procissão passa até chegar ao palco onde se realiza a missa ao ar livre.

O barquinho com a imagem de São Pedro, da Colônia de Pescadores Z-24, carregada por fiéis na tradicional procissão de barcos na Lagoa de Saquarema (foto: Edimilson Soares)

O barquinho com a imagem de São Pedro, da Colônia de Pescadores Z-24, carregada por fiéis na tradicional procissão de barcos na Lagoa de Saquarema (foto: Edimilson Soares)

Também a Festa do Divino, carregada de uma tradição milenar, é uma marca de Saquarema. Segundo o historiador Darcy Bravo, autor do único livro histórico do município, Minha Terra Saquarema, a Folia do Divino existe no município desde 1769. Introduzida pelo padre Antonio Moreira e presidida pelo fazendeiro Tomaz Cotrim de Carvalho, que doou vários instrumentos litúrgicos para a festa e construiu o “Império”, coreto que existe até hoje em frente à Praça do Artesanato, a Folia do Divino ainda mantém a tradicional “benção da farinha”, um ritual que se extinguiu em todo o Rio de Janeiro.

Outro benfeitor da Folia do Divino foi o coronel José Pereira dos Santos, o Barão de Saquarema, que doou o prédio onde hoje se instalou a Casa da Cultura Walmir Ayala, onde funcionou a Câmara Municipal e a Prefeitura, além de vários objetos para a antiga Irmandade.

O antigo ritual da “benção da farinha”, na Folia do Divino, só se manteve em Saquarema no Estado do Rio de Janeiro, como uma prece à fartura nas mesas das famílias (foto: Agnelo Quintela)

O antigo ritual da “benção da farinha”, na Folia do Divino, só se manteve em Saquarema no Estado do Rio de Janeiro, como uma prece à fartura nas mesas das famílias (foto: Agnelo Quintela)

O município deve se orgulhar de ainda manter essas manifestações culturais. Sem essas características essenciais, Saquarema seria uma cidade igual às demais cidades da Região dos Lagos e do Rio de Janeiro. Um dos traços que nos torna diferentes, especiais, é justamente a maneira de festejar as datas do calendário religioso que vem desde os tempos coloniais, cultuado até hoje em várias partes do Brasil.

 

São João, uma tradição que não se apaga

João se orgulha dos troféus que conquistou ao longo dos 29 anos da Quadrilha Asa Branca, como o Troféu Festa do Interior, conquistado em 1994, em Araruama (foto: Edimilson Soares)

João se orgulha dos troféus que conquistou ao longo dos 29 anos da Quadrilha Asa Branca, como o Troféu Festa do Interior, conquistado em 1994, em Araruama (foto: Edimilson Soares)

Como o fogo das fogueiras, as festas de São João não acabam no Brasil, desde os tempos coloniais, assim como em Saquarema. Uma prova do espírito festivo que permanece no município é a existência da quadrilha Asa Branca, de Sampaio Corrêa, que está fazendo 29 anos no mês de junho e ano que vem fará 30. Sem praticamente nenhum apoio financeiro oficial, somente com a ajuda de comerciantes locais, a Asa Branca permanece formando gerações de brincantes, sob o comando do marcador de quadrilha João Campelo.

Todos os anos, João bate às portas do comércio e leva os jovens quadrilheiros onde são convidados. A empresa Rio Lagos é uma que sempre fornece o transporte da quadrilha, quando é solicitada. Supermercados e empresas da construção civil também. O jornal O Saquá sempre noticia as exibições da Quadrilha Asa Branca, como é o caso do Arraial da Vila, no dia 25 de junho. Vale a pena ver a apoiar esta tradicional manifestação popular que atravessou ou séculos, para permanecer até hoje nas nossas mentes e no inconsciente coletivo do povo brasileiro. E viva o São João saquaremense!

Compartilhe!
Palavras-chave:

Sobre o autor

Dulce Tupy é editora do jornal O Saquá e da Tupy Comunicações.