Desespero faz o lulopetismo apelar para farsa do “golpe”

Opinião - Silênio Vignoli

Na medida em que a campanha pelo impeachment cresceu, o PT se encalacrou cada vez mais. Com o avanço da Lava-Jato e o juiz Sérgio Moro se aproximando do ex-presidente Lula, o departamento de agitação e propaganda do PT decidiu inserir, na estratégia de defesa do partido e de uma presidente acuada no Planalto, a palavra “golpe” que ganhou grande referência. “Golpe” é curto, fácil de pronunciar e adequado para ser gritado repetidas vezes em manifestações , embora nada tenha a ver com a crise política por que passa o país e, muito menos, com o processo de impeachment da presidente Dilma.

Em 1964 foi um golpe sim, porque houve ruptura institucional com o aniquilamento das instituições nacionais pelos militares. A atual farsa do “golpe” convence apenas os desinformados e ingênuos, servindo mesmo aos mal-intencionados – estes sim, golpistas – que desejam envolver numa espessa nuvem de fumaça as provas e evidências da grossa corrupção do mensalão e do petrolão que contamina os quadros lulopetistas. Esta farsa do “golpe” foi construída como forma de manter a militância mobilizada. Uma farsa que saiu da rua e invadiu as dependências do governo, através de pronunciamentos feitos pela presidente Dilma nos comícios promovidos no principal salão do Palácio do Planalto convertido em palanque. E foi adiante até se infiltrar no discurso de defesa da presidente, esbravejado em alto e bom som no Congresso e no Supremo Tribunal Federal (STF) pela Advocacia Geral da União (AGU).

Um “golpe” com
contraditório,
ampla defesa e
tudo ao vivo?

 

A alegação de que o impeachment é um “golpe” foi rechaçada por lideranças de importantes entidades representativas da sociedade organizada e até por ministros do STF. Argumentando que as regras foram definidas pela Corte e respeitadas pelos deputados e senadores, o decano do Supremo, Celso de Melo, afirma que a acusação de Dilma “é um gravíssimo equívoco”. Já para o ministro Dias Toffoli, “o processo assegurou amplo direito de defesa e, agora, ser rotulado de golpe soa como uma pesada ofensa às instituições brasileiras”. O senador Antonio Anastasia (PSDB-MG), relator da Comissão do Impeachment foi taxativo: “Presidencialismo sem possibilidade de impeachment é monarquia absoluta, é ditadura. Por isso é que este mecanismo está previsto em todas as nossas Constituições e, inclusive, já foi utilizado sem traumas institucionais”.

Com 77 votantes, em decorrência das três ausências e da abstenção regimental do presidente do Senado, Renan Calheiros, os 55 votos conseguidos para a admissibilidade do impeachment – bastariam 52 em vez de 54 (dois terços de 81) – indicam que a tarefa do afastamento definitivo de Dilma poderá ser mais fácil do que se supunha. Se Michel Temer admitir que está recebendo a chance história de tornar-se um presidente da República respeitável, segundo critérios programáticos e meritocráticos, estaremos dando um passo à frente, visando a reorganização do Estado brasileiro, aparelhado e espoliado nos últimos anos por grupos políticos que pretendiam eternizar-se no poder.

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Sobre o autor

Silênio Vignoli é editor adjunto do jornal O Saquá.