Santa Luiza: a usina de Sampaio Corrêa que foi um verdadeiro motor para Saquarema dos anos 30 a 70

A Usina Santa Luiza foi uma das maiores do Rio de Janeiro, perdendo apenas para uma do município de Campos dos Goytacazes. (Foto: Arquivo Herivelto B. Pinheiro)

A Usina Santa Luiza foi uma das maiores do Rio de Janeiro, perdendo apenas para uma do município de Campos dos Goytacazes. (Foto: Arquivo Herivelto B. Pinheiro)

A pequena estação de trem Sampaio Corrêa, da antiga Estrada de Ferro Maricá (EFM), não existe mais e o campo hoje ocupado por extensas plantações de grama, entre outras culturas, além dos populosos bairros da Basiléia e Nova Califórnia, não refletem a pujança da antiga Usina Santa Luiza, que ocupava cerca de 17 fazendas, no Terceiro Distrito. Criada em 1936, no governo Getúlio Vargas, a S/A Agrícola Santa Luiza chegou a produzir e exportar 1 milhão de sacas de 60 kg de açúcar em seus tempos áureos, perdendo em produção apenas para uma usina em Campos de Goytacazes, maior produtor do Estado do Rio de Janeiro.

Fechada em 1973, a Santa Luiza é lembrada atualmente pelas ruínas de suas duas torres e outras edificações que ainda restam do seu tempo de glória, quando Sampaio Corrêa era a mola propulsora do desenvolvimento do município de Saquarema, que chegou a empregar cerca de 4 mil trabalhadores, em Sampaio Corrêa, movimentando toda a economia da região.

Segundo um antigo funcionário, que trabalhava no escritório da usina e posteriormente se tornou vereador e vice-prefeito de Saquarema, a Usina Santa Luiza foi durante 4 décadas o maior sustentáculo financeiro do município, em recolhimento de impostos. Segundo Gervásio Oliveira, que até hoje mora na Serra do Matogrosso, em Sampaio Corrêa, a usina fabricava açúcar, álcool e melaço. Foi fundada pelo médico e senador alagoano Dr. Durval Rodrigues da Cruz, que adquiriu as fazendas do também senador Sampaio Corrêa. Santa Luiza tinha seu escritório central na rua 1° de Março, 16, no centro do Rio; mais tarde, a usina tornou-se cooperada, através da Cooperçucar, em Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense.

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O que restou da Usina são duas torres e algumas edificações no meio do pasto. (Foto: Edmilson Soares)

O que restou da Usina são duas torres e algumas edificações no meio do pasto. (Foto: Edmilson Soares)

“Em 1972, a supersafra da usina foi comemorada com um show de escolas de samba do 1° grupo que veio do Rio: a Imperatriz Leopoldinense, o Salgueiro e a Mangueira”, conta Gervásio, hoje o funcionário mais antigo da Prefeitura Municipal. Ele também se recorda, mas sem muita certeza, que a Imperatriz chegou a fazer um enredo falando da usina, inclusive do time de futebol da fábrica que era o Santa Luiza Futebol Clube. “O Santa Luiza foi uma agremiação que realizou grandes acontecimentos e fez história no futebol de Saquarema, revelando jogadores para o cenário nacional e até internacional, conquistando vários títulos. Em 1958, a equipe do Santa Luiza realizou um jogo treino com a seleção brasileira campeã do mundo”, afirma o ex-funcionário da usina que começou trabalhando em pequenas funções e acabou sendo um dos mais importantes técnicos da área administrativa da Santa Luiza, na área de recursos humanos.

Gervásio conta que, além do bom gramado do clube, a usina também possuía quadra de basquete, um cinema e uma casa de show, onde se realizavam bailes e se apresentavam artistas consagrados que vinham do Rio. Cerca de 30% das terra de Saquarema pertenciam à Usina Santa Luiza que abastecia os supermercados com açúcar cristal, bem como as refinarias do Rio. A usina possuía também uma frota de 55 tratores para transportar as carretas com cana, matéria-prima do açúcar fabricado, e tinha um gerador de energia próprio, para a produção, mas que servia ainda aos moradores que residiam próximo da fábrica. Depois do falecimento do senador Durval Cruz, a usina foi administrada pelo seu filho mais velho, Carlos Durval Cruz. Casado com a neta do famoso industrial nordestino Delmiro Gouveia, pioneiro da indústria de algodão em Pernambuco, Durvalzinho, como era conhecido, teve 4 filhos com a bela Sônia Gouveia, que até hoje mora um pouco no Rio e um pouco em Saquarema.

Nos tempos áureos, a Usina chegou a promover festas com as escolas de samba que vinham do Rio: Imperatriz Leopoldinense, Salgueiro e Mangueira. Para comemorar a grande safra, realizou-se uma festa de dois dias de duração, com muito churrasco e cerveja. (Foto: Arquivo Herivelto B. Pinheiro)

Nos tempos áureos, a Usina chegou a promover festas com as escolas de samba que vinham do Rio: Imperatriz Leopoldinense, Salgueiro e Mangueira. Para comemorar a grande safra, realizou-se uma festa de dois dias de duração, com muito churrasco e cerveja. (Foto: Arquivo Herivelto B. Pinheiro)

“Durval sempre trabalhou muito”, fala Sônia. “Dona Carmen (mãe de Durvalzinho) e o senador (Durval Cruz) foram pessoas maravilhosas. Vieram para Sampaio Corrêa há muitos anos e fundaram a usina. Dona Carmen era uma senhora muito caridosa, fazia doce de banana para vender e ajudar os pobres; ajudava as obras da igreja e é venerada até hoje pelos moradores. O senador era um homem finíssimo, cuja família é praticamente dona de Sergipe. O ex-senador Albano Franco é sobrinho dele; foi criado no mesmo quarto que Durval no Rio”, revela a elegante Sônia, que trocou o conforto e a badalação dos anos dourados da Zona Sul carioca pela tranquilidade de Saquarema, onde criou seus filhos.

O ex-vereador e ex-vice-prefeito Gervásio. (Foto: Edmilson Soares)

O ex-vereador e ex-vice-prefeito Gervásio. (Foto: Edmilson Soares)

Cenário de muitas histórias, a Usina Santa Luiza, acabou nos anos 70, mas a sua lenda nunca se acabou. A maioria das tradicionais famílias saquaremenses têm uma história para contar sobre a usina. Pessoas notáveis do município começaram a construir suas carreiras, hoje bem-sucedidas, nos campos de Sampaio Corrêa; políticos se projetaram, tendo como cenário a usina de açúcar. Basta lembrar o ex-prefeito Jurandir Melo, eleito três vezes prefeito, três vezes vice-prefeito e até hoje na ativa, como presidente do IBASS (Instituto de Benefícios e Assistência Social de Saquarema). Também o ex-prefeito Dalton Borges, que tem hoje um sobrinho vereador: Rodrigo Borges. Recentemente faleceu Hélio Mattos, o ex-prefeito oriundo do Terceiro Distrito, que sendo do antigo PTB amargou as perseguições do regime militar, mas sempre se manteve altivo. Também fazem parte desta tradição política local os ex-vereadores Zostinha, Gildo Leonel e outros, todos filhos de Sampaio Corrêa, ou agregados ao distrito que hoje vive uma transformação social, como sede do Polo Industrial, que aponta um novo futuro para o local.

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