DIÁLOGO IMPOSSÍVEL?

Cultura é Notícia - Beatriz Dutra

Domingo cinzento, atípico de verão. Chuvinha miúda. Friozinho gostoso. Programação caseira: um amorzinho sem pressa, um almoço simples mas saboroso, o jornal lido com calma, um soninho à tarde, e depois a leitura de um bom livro ou ver um DVD escolhido. Coisas simples mas que dão felicidade, e, sobretudo, têm o sentido de pausa na luta pela vida nesses dias de caos político e econômico…
E foi nessa programação, que reli uma das crônicas mais criativas de Luis Fernando Veríssimo, publicada em seu livro “Diálogos Impossíveis”: “A diferença”, na qual ele torna possível, o impossível encontro entre Batman e Drácula, numa clínica geriátrica, na Suíça.
Pra começar, “Batman não acredita que Drácula tenha mais de 500 anos. – Tempo demais – diz Drácula. Estou na terceira idade do Homem. Depois da mocidade e da maturidade, a indignidade”… E para ele, o cúmulo da indignidade é a dentadura falsa. “Ele não pode ver sua própria dentadura sobre a mesinha de cabeceira sem meditar sobre a crueldade do tempo. Já tentou o suicídio, sem sucesso (…) e ninguém se dispõe a matá-lo, agora que seus caninos são postições e ele não é mais uma ameaça. Drácula está condenado à vida eterna, à velhice sem redenção e à indignidade sem-fim. Internou-se na clínica com a vaga esperança de que a Morte, que vem ali buscar tanta gente, um dia o leve por distração.”
Já Batman é mortal e “conta que está na clínica para retardar a morte. Não confessa sua idade, mas recusa-se a tirar a máscara para que não vejam suas rugas… – Eu já não voava. Hoje quase não caminho. Não posso mais dirigir o Batmovel, não renovaram minha carteira… Mas ele não quer a redenção da morte. Quer a vida eterna, a mesma vida eterna de um homem de aço.”
E continua Batman: “Somos completamente diferentes! (…) Eu sou o Bem, você é o Mal. Eu salvava as pessoas, você chupava o seu sangue e as transformava em vampiros como você. Somos opostos. (…) A diferença é que eu escolhi o morcego como modelo. Foi uma decisão artística, estética, autônoma”.
– “E estranha – diz Drácula. – Por que morcego? Eu tenho a desculpa de que não foi uma escolha, foi uma danação genética (…) E veja a ironia, Batman. O Morcego Bom passa, o Morcego Mau fica. Um não quer morrer e morre, o outro quer morrer e não morre”. (…) E prossegue a surrealista conversa, até que “Batman pede que Drácula se retire. Dali a pouco chegará Robin com os netos e ele não quer que as crianças se assustem”.

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Sobre o autor

Beatriz Dutra é poeta, “Cidadã Saquaremense” e membro da Academia de Letras Rio – Cidade Maravilhosa.