SEU COSME, ABELARDO, RUBINHO…

O casal Ivan e Isis Proença em sua casa no Lago do Paraíso, em Bacaxá, que abriga a maior biblioteca de Saquarema. Ivan chegou a ser por um breve tempo secretário de Cultura de Saquarema

O casal Ivan e Isis Proença em sua casa no Lago do Paraíso, em Bacaxá, que abriga a maior biblioteca de Saquarema. Ivan chegou a ser por um breve tempo secretário de Cultura de Saquarema

Ivan C. Proença ( * )

Passeávamos, eu e Isis, no largo da Igreja mais lírica do mundo, Nª Srª de Nazareth, em tarde nublada, acanhada brisa ondulando a água da lagoa, quando encontramos o Luís, músico e cantor, de família também quase toda de músicos. O Luís, que faz o melhor duo musical do Município com o irmão tecladista e cantor, Jeremias, foi logo nos dando a notícia: estava ali, vindo para o enterro de Seu Cosme. Triste tarde aquela. Seu Cosme, mestre do chorinho, nos acordes lamentosos do cavaquinho, que comandava as famosas rodas de choro em sua modesta casa (a que assisti), cercado pelos filhos também músicos, o Almir da bateria que por longos anos tocou no democrático Pedacinho do Céu e o Cosminho, exímio e competente pandeirista. Seu Cosme, que ficava sentado à porta de uma casa ao lado da Farmácia Mendonça conversando com os amigos nos fins de semana, usando um boné que o fazia parecer músico do Buena Vista Social Clube. Seu Cosme que tocou com seu Abelardo, contador de histórias, veterano mestre do Bandolim, também falecido há algum tempo e que, com mais de 90 anos, tocava no Serra Castelhana, de propriedade do seresteiro (e seu filho) Edson. Todos velhos conhecidos do violonista e cantor, falecido, amigo Rubinho, que lá no alto deve estar com saudades daquele Pedacinho do Céu que fundou com a família também de músicos (a notável cantora D. Norma, o filho Tony). Aí estão: famílias do Município dedicadas à boa música popular, e sem o justo e devido reconhecimento. São exemplos de identidade cultural. Aliás, os municípios do Estado, não raro com modestos orçamentos, quando de suas datas festivas optam por “importar” caríssimos e medíocres grupos de “pagodeiros” (na verdade, pagode é coisa séria), conhecidos por participar de programas de auditório, não menos medíocres. Ignoram-se os talentos locais, tal fossem os santos de casa que não fazem milagres. Em boa hora, Saquarema vai substituir o nome do tirano, em Escola, pelo do poeta Bandeira.
Sem sectarismo, que sejam bem-vindos os surfistas, o frescobol (agora inacreditável patrimônio cultural), o futebol americano, o jiu-jítsu, até os funkeiros (bem como o rap, hip-hop, etc) embora quase todos, no Brasil, ainda longe de razoável qualidade; bem-vinda a “invasão” de um trânsito intenso (beneficia o comércio, é o que dizem), bem-vindos turistas não predadores e o famoso centro de treinamento de vôlei, as indústrias que chegam, etc. Mas nada disso constitui a identidade cultural que caracteriza, estimula e envaidece o povo. Tal Identidade deve ser não apenas lembrada, como, e principalmente, quando possível, reativada, ou mantida, o que garante o não-colonialismo diante da “metrópole” Rio ou diante do velho imperialismo. Só lembrando, como exemplo: os valores artísticos locais, um Centro Cultural de verdade, as bandinhas e suas retretas nos coretos, os Folguedos (tal a Folia de Reis de Sampaio Correia), os pregoeiros, os contadores de histórias (velhos pescadores, caçadores, etc), as bibliotecas e exposições locais, a volta das tardes festivas dos domingos do campeonato de futebol do Município, os ranchos (o Flor de Itaúna, por exemplo), as rodas de choro e samba autênticos, as cavalhadas, os torneios de caça e pesca. Por aí, só como simples lembrança.
Já pensaram? Seu Cosme, seu Abelardo e o nosso Rubinho tocando juntos lá onde estão? Azar de quem não os conheceu aqui.

(*) Ivan C. Proença é Professor, Mestre e Doutor. Escritor e Ensaísta.

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Sobre o autor

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