Bravinho, a memória viva do carnaval de Saquarema

Bravinho e seu precioso acervo de família narram a história do município (Edimilson Soares)

Bravinho e seu precioso acervo de família narram a história do município (Edimilson Soares)

As primeiras lembranças do carnaval de Saquarema datam de 1904, tendo como pioneiro Frutuoso de Oliveira, pai do famoso pintor Antenor de Oliveira, bisavô de João Bravo Neto, o Bravinho, neto de Carmem Pepita, filho de Darci Bravo, autor do livro “Minha Terra Saquarema”, tio de Herivelto Bravo Pinheiro, autor do livro “Raízes de Minha Terra”, ambos esgotados. Na varanda de sua casa, no centro de Saquarema, conhecida pelos mais velhos como Vila, Bravinho conta que o primeiro bloco da cidade foi o “Cana Verde”, com as cores verde e amarelo. Em 1916, os foliões Casimiro e Manduca criaram o bloco “Tenentes do Areal”, vermelho e branco e, no ano seguinte, surgiu o “Paladino”, criado pelo cantor e compositor Mário Cruz, roxo e branco.

“Mario Cruz era oposição aos blocos do Frutuoso; era caçador de jacarés, que ele caçava na Lagoa de Jaconé”, relata Bravinho, baseado no livro de seu pai e nas histórias que ouvia quando garoto.
Em 1918, o “Paladino” muda de nome e passa a se chamar “Rancho Carnavalesco Fenianos”, vermelho e branco e surge também o “Primavera”. Na efervescência de blocos e ranchos, em 1920, surge o “Democráticos” e, em 1921, o “Rancho Esperança”, verde e branco, mais um criado pelo Mário Cruz, que por ser da oposição, contra o poderoso Coronel João Bravo, fica sem subsídios para colocar na rua o seu carnaval.
Em 1922, o “Tenentes do Areal” passa a ser dirigido pelo cantor e compositor Zé Espanhol e o “Rancho Quem sou eu”, de Ipitangas, desfilou na Vila. Em 1930, Antenor Moreira, pai do Seu Enéas, do Bar do Enéas, na Av. Saquarema, assumiu a direção do “Tenentes do Areal”, que vinha lá da Ponte do Girau na direção da Vila; Bravinho sai nesse rancho, que rivalizava com o “Rancho Esperança”, então chefiado por Beco Teixeira e pelo poeta José Bandeira, que saía da Vila, na direção contrária dos “tenentes”.

Bravinho ritmista, levantando seu chocalho na bateria do Reco-Reco ( Arquivo Pessoal Bravinho )

Bravinho ritmista, levantando seu chocalho na bateria do Reco-Reco ( Arquivo Pessoal Bravinho )

“Naquela época, os ranchos entravam nas casas das pessoas, com suas fantasias, inclusive de índios, entoando marchas. Tinha até um índio mesmo, que desfilava com seu arco e flecha e se chamava Catarino” lembra Bravinho. “Acho que ele morava no Porto da Roça”…
Em 1945, o “Tenentes do Areal” vira escola de samba, preto e encarnado, por iniciativa de Geraldo Aguiar, motorista no tempo do Getúlio. A partir daí não houve mais desfiles no carnaval de Saquarema até 1958, quando a escola de samba “Tenentes do Areal” voltou a desfilar, sob a direção do Agulha, como também o “Ranho Esperança”, de Zé Bandeira. Em 1964, o “Rancho Esperança” faz ensaios numa sede provisória e sai às ruas com a música “Saquarema”, de Luiz Airão. O “Tenentes do Areal” também se organiza; Joãozinho Bravo, tio do Bravinho, fazia os estandartes…
A memória do carnaval saquaremense está apenas se esboçando. É preciso resgatar esses e outros blocos que surgiram nos anos 70 e 80, entre eles o Reco-Reco, a Gaiola das Loucas e o Bloco do Grilo até chegar aos dias atuais, com foliões e blocos se multiplicando por todos os bairros do município.

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Sobre o autor

Dulce Tupy é editora do jornal O Saquá e da Tupy Comunicações.