Aulas de corrupção levam a Petrobras ao fundo do poço

Opinião - Silênio Vignoli

O que todos nós admitíamos como suposição está ganhando contornos de uma triste realidade: o esquema de corrupção nas licitações de obras públicas está disseminado por vários setores e não se restringe apenas à Petrobras. Com profundo conhecimento de causa, esta certeza já havia sido levantada pelo ex-diretor da Petrobras, Paulo Roberto Costa, ao iniciar o processo de delação premiada nas investigações do gigantesco escândalo da estatal, que ficou conhecido como “petrolão”. Em recente sessão da CPI mista do Congresso, Paulo Roberto afirmou que o mesmo esquema de corrupção existente na Petrobras se multiplica em todos os outros contratos públicos do país, incluindo ferrovias, rodovias, portos, aeroportos e demais obras. O próprio juiz Sergio Moro, do Paraná, responsável pelas investigações da Operação Lava-Jato, diz que as evidências já recolhidas indicam que o esquema de fraude em licitação “vai muito além da Petrobras”. Ele classificou de perturbadora uma tabela apreendida com o doleiro Alberto Youssef, que continha uma lista com 750 obras públicas de infraestrutura.

 

Pior é que o
esquema vai
muito além
da Petrobras

O mais desastroso neste imensurável escândalo da Petrobras é o fato dele atingir diretamente a política, já que as empreiteiras incriminadas e seus respectivos executivos eram ligados umbilicalmente a importantes líderes políticos, que foram colocados cada um em seu qual, ou seja, diretores indicados diretamente por partidos políticos como PT, PP e PMDB. É por isso que o petróleo vai mexer com a estrutura da política brasileira. Esse esquema foi parcialmente confirmado pela delação premiada do executivo Mendonça Neto, da Toyo Setal, ao revelar que verba desviada de uma obra da Petrobras fora transformada em doação “legal” para o PT, por orientação do ex-diretor da Petrobras, Renato Duque, indicado pelo ex-ministro José Dirceu.
É, fundamentalmente, um esquema de financiamento político, montado no Palácio do Planalto a exemplo do “mensalão”, para financiar a base congressual governista, e vai atingir o ex-presidente Lula e a presidente Dilma que, diga-se de passagem, domina a área de Minas e Energia desde quando era ministra no primeiro governo petista. Chegamos ao fim da linha. Não é possível mais. É impossível continuarmos neste processo destrutivo. Prejudica a imagem de nação civilizada e moderna. Prejudica a política. A corrupção institucionalizada é um degrau acima na escala de degradação do Estado brasileiro. Uma indagação não quer calar: por corrupção que não chegava nem a 20% desta do “petrolão” votaram o impeachement de Collor. E agora? Cadê os “caras pintadas”? Muitos deles estão hoje a serviço do “lulopetismo” que assumiu o poder central em 2003.

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Sobre o autor

Silênio Vignoli é editor adjunto do jornal O Saquá.