A casa de farinha de Seu Arlindo um pedaço da história de Saquarema

Seu Arlindo e o professor Vitor na casa de farinha no Rio Mole, onde mantém uma tradição de séculos (Dulce Tupy)

Seu Arlindo e o professor Vitor na casa de farinha no Rio Mole, onde mantém uma tradição de séculos (Dulce Tupy)

O geógrafo Vitor Frias, professor da rede de ensino estadual e da rede municipal, é um dos mais preparados do município. Formado na UFF, com mestrado em meio ambiente, é também surfista, casado e um jovem papai. Sendo assim, foi uma surpresa para mim saber que ele iria visitar uma casa de farinha, no Rio Mole. Como ando à procura de uma casa de farinha para fazer uma reportagem, já que elas estão desaparecendo em Saquarema, perguntei se poderia ir também. Prestativo, na mesma hora ele disse que sim e combinamos o dia e hora para nos encontrarmos e partir para uma tarde inesquecível.

Situada aos pés da Serra do Amar e Querer, a casa do Seu Arlindo, 87 anos, tem aos fundos uma casa de farinha que ele mantém, apesar de todas as dificuldades do trabalho pesado que exige cada uma das fases de preparação da farinha, desde a colheita e o descascamento da mandioca, passando pela moenda, depois pela prensa de onde sai uma massa que é colocada num cocho de madeira onde é peneirada, virando farinha crua, finalmente torrada num forno especialmente projetado para esta função, o tambor. Todo este processo dura algumas horas e Seu Arlindo, com a ajuda de seu filho Edil, vai transformando a mandioca em farinha, com a leveza de um mestre, compartilhando cada etapa.
Arlindo Henrique de Marins, filho de Manoel Henrique, nasceu na fazenda Amar e Querer, cuja sede era um sobrado de muitos quartos, semelhante às casas coloniais das fazendas do final do século XIX. Derrubada há cerca de 15 anos, hoje sobrevive na memória de Seu Arlindo e na fotografia que ele mostra emocionado. Ali viveu Rosa, sua avó, escrava angolana trazida para a fazenda aos 13 anos, que ele conheceu e que falava um português enrolado que ele e seus irmãos quase não entendiam… “Eu me criei nesta vastidão aqui”, diz Arlindo, lembrando que também fazia cachaça na fazenda, que vendia muitos barris por dia.
Avô da jovem Natália, aluna do professor Vitor, Arlindo faz questão de mostrar os grãos de café comprado em Rio Bonito, que depois de moído espalha um cheiro gostoso no avarandado da casa, onde a esposa Dona Maria e uma de suas filhas nos esperam para um cafezinho com bolo de laranja e limão. É uma doce volta ao passado, que misturado ao ruído e à umidade da chuva, nos leva a um tempo que ficará congelado para sempre em nossas mentes.

Compartilhe!
Palavras-chave:

Sobre o autor

Dulce Tupy é editora do jornal O Saquá e da Tupy Comunicações.