As eleições entram para a história com uma tragédia

Opinião - Silênio Vignoli

A tragédia que matou o ex-governador de Pernambuco e candidato à Presidência da República, Eduardo Campos, mudará, de forma brutal e inimaginável, o cenário da campanha eleitoral deste ano. Por trágica coincidência, o político pernambucano saiu de cena num mesmo 13 de agosto em que, há nove anos, morria seu avô Miguel Arraes, de quem herdou o comando do Partido Socialista Brasileiro (PSB) e um expressivo capital político. Campos era um político progressista que , por ser neto de Miguel Arraes, trazia no DNA os ideais de uma sociedade mais justa e igualitária. Era uma chama de esperança que despontava não só como alternância de poder, mas também de efetivas mudanças no país.

 

Sobrevive o
refrão: “Não
vamos desistir
do Brasil”

O desaparecimento de Eduardo Campos tem, entre outros, o grave significativo de uma séria perda no processo de renovação geracional da política brasileira. Com 49 anos e neto de Miguel Arraes, um histórico político pernambucano, Campos vinha se consolidando como liderança para permanecer no cenário nacional mesmo que não conseguisse a vitória nas urnas de outubro, ainda que sequer fosse para o segundo turno. A perda de um político jovem, com grande capacidade de liderança, independentemente de partido e ideologia, assume proporção negativa grandiosa, num país que perambulou 21 anos numa ditadura militar (1964-1985), sem poder formar quadros num ambiente institucional de liberdades. A súbita e prematura retirada de Eduardo Campos da cena política nacional torna inevitável o reconhecimento de como a República brasileira tem sido grampeada pelo trágico e pelo inesperado. Um longo governo oligárquico, duas ditadura, um suicídio, um renúncia, um impeachment, a morte de Tancredo no momento da posse e as perdas de lideranças com futuro promissor vão pontilhando com cicatrizes a trajetória política deste país.
Na noite da véspera de sua morte, poucas horas antes do acidente, Eduardo Campos concedia ao Jornal Nacional da TV Globo, sua última entrevista, quando reforçou o discurso e a postura repetidos ao longo de sua campanha rumo ao Palácio do Planalto, com críticas mordazes à política econômica da presidente Dilma Rousseff e a tentativa de se identificar como fator novo da política brasileira, incorporando aquela insatisfação despertada pelas manifestações de junho do ano passado. Pressionado pelos apresentadores do telejornal da TV Globo, Eduardo Campos respondeu às perguntas com clareza e sem titubear. Firme, mas aparentando tranquilidade, deixou transparecer sua convicção de que “O Brasil tem jeito”, ao sustentar sua proposta numa frase que, com sua morte no dia seguinte, já entrou para a história: “É aqui onde vamos criar nossos filhos, é aqui onde temos que criar uma sociedade mais justa, por isso não vamos desistir do Brasil”.

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Sobre o autor

Silênio Vignoli é editor adjunto do jornal O Saquá.