Desalento com Brasil de hoje remete ao “Brizola na cabeça”

Opini„o - SilÍnio Vignoli

Ao registrarmos os 10 anos do Brasil sem Brizola, ressaltando seu legado político, não estamos apenas tratando de memória, de história, mas destacando as ideias que este coerente líder defendia para impedir as manobras e casuísmos num país onde a classe dominante, defensora do neoliberalismo, bloqueia o direito da nação tornar-se soberana e socialmente justa. Nunca se saberá se a reação ao golpe civil-militar de 1964 proposta por Brizola, mas abortada com a desistência de João Goulart para lutar, poderia ou não ter dado outro rumo ao Brasil. Mas a liderança de Brizola cresceu e ganhou expressão suficiente para extravasar os limites do Rio Grande do Sul. Iniciada em 1962, quando se elegeu deputado federal pelo então Estado da Guanabara, essa trajetória ganhou dimensão, em 1982, com uma retumbante vitória para governador do Estado do Rio de Janeiro, quando adotou na campanha o contundente slogan “Brizola na cabeça”, com o duplo sentido de “na mente” e “no total de votos recebidos”.

No governo do Estado do Rio de Janeiro, mais uma vez Brizola adotou como prioridade a Educação, daí surgindo o consagrado projeto dos CIEPs, reconhecido mundialmente, elaborado pedagogicamente por Darcy Ribeiro e arquitetonicamente por Oscar Niemeyer, incluindo uma fábrica de pré-moldados que permitia a instalação de uma escola a cada 120 dias. Foi o primeiro passo para a consolidação do chamado “Socialismo Moreno”, mostrando ao país que um outro Brasil é possível, mesmo lamentando que os governos posteriores tenham destruído esta maravilhosa obra porque prejudicava os cofres dos poderosos proprietários da rede particular de ensino.

Um outro fato marcante, na passagem de Brizola pelo poder no Estado do Rio de Janeiro, foi a criação de pagamento do 13º salário para o funcionalismo público estadual, pela primeira vez em todo o país. Nenhum funcionário público no Brasil, nem os federais, recebia o 13º salário. Foi uma pancada forte que, imediatamente, a União, os demais Estados e os Municípios tiveram que adotar também, rebocados por Brizola que passou a não ser mais deste ou daquele Estado…

O golpe de 64 interrompeu a carreira política de Brizola, mas não conseguiu apagar a sua liderança reconhecida como a de um grande estadista, inclusive fora do Brasil. Brizola representava a esperança para o povo pobre e despossuído, que ainda tinha na lembrança o nome de Getúlio Vargas e tudo mais que ele representou para os trabalhadores. Brizola era um político que não temia assumir suas ideias e enfrentar as forças que fossem, como fez até depois da abertura política, quando se tornou um pedra no sapato dos ex-ditadores e da elite golpista, cujo porta-voz era a TV Globo, na pessoa de seu proprietário Roberto Marinho, com quem manteve uma emblemática batalha, fazendo-o engolir um memorável direito de resposta no telejornal de maior Ibope, o Jornal Nacional.

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Sobre o autor

Silênio Vignoli é editor adjunto do jornal O Saquá.