A rememoração do Golpe de 64

Eventos no Rio lembram os 50 anos do Golpe Militar e Civil que
derrubou o governo Jango e mergulhou o Brasil em 21 anos de chumbo

Esta foto clássica de Evandro Teixeira, do Jornal do Brasil, retrata a ação violenta do Golpe Militar no centro do Rio (Foto: Evandro Teixeira)

Esta foto clássica de Evandro Teixeira, do Jornal do Brasil, retrata a ação violenta do Golpe Militar no centro do Rio (Foto: Evandro Teixeira)

Livros, filmes, debates, seminários, manifestações. Tudo sobre o Golpe Militar e Civil de 64, que faz 50 anos no próximo dia 1º de abril, está sendo revisto no Rio de Janeiro e em várias capitais do país, em universidades, sedes de instituições como OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), ABI (Associação Brasileira de Imprensa), Clube de Engenharia e outros espaços abertos à reflexão. Os terríveis anos de chumbo que se sucederam à queda do governo do presidente João Goulart, o Jango, mudaram a face do Brasil. Se por um lado houve o chamado “milagre econômico”, que privilegiou algumas classes sociais, também ocorreu uma maior desigualdade social, aumentando a distância entre ricos e pobres.

No plano político, foi um período de exceção, ditatorial, com perseguição aos sindicalistas da cidade e do campo, estudantes, intelectuais e artistas, tortura e assassinato nas prisões, como ocorreu também em vários países da América Latina, condenados ao mesmo destino trágico. Apoiado pelos Estados Unidos, o governo militar que se instaurou no Brasil durante 21 anos, marcou profundamente gerações de brasileiros que abraçaram a luta armada ou se tornaram exilados políticos, sem falar naqueles que sobreviveram clandestinamente, dentro e fora de seu próprio país. Vítimas da repressão mais violenta na história do país, muitos permaneceram em silêncio, isolados, numa resistência surda que eclodiu nas grandes manifestações populares pelas eleições Diretas Já, em 1984, depois de uma relativa anistia.

Saquarema também
foi alvo da ditadura

Em Saquarema, os reflexos desta ruptura também se sentiram na trajetória de cidadãos e cidadãs, além dos políticos, principalmente do antigo PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), o partido do presidente Jango, herdeiro trabalhista de Getulio Vargas e cunhado do então governador do Rio Grande do Sul Leonel Brizola. Governava o município de Saquarema, em 64, o prefeito Gentil Mendonça, que substituíra Helio Mattos, eleito para governar a partir de 1959. Jovem, carismático e fazendeiro, Helio despontou para a política em Rio Mole. No bojo dos eventos que marcaram aquela época, sempre banhados em grandes injustiças, a casa de Hélio Mattos foi invadida, pegando de surpresa sua então jovem esposa, a professora Leda da Silveira, mãe de dois de seus filhos pequenos, Helio, com 1 ano e meio no colo e Heliozinho, com 1 mês e pouco, no berço.

Leda, ao fundo, com seus 5 filhos na casa do Rio Mole invadida pela polícia (Arquivo Pessoal)

Leda, ao fundo, com seus 5 filhos na casa do Rio Mole invadida pela polícia (Arquivo Pessoal)

“Eu estava em casa e o Hélio trabalhando em Sampaio Corrêa, transportando cana de açúcar. Por volta das 10 chega ele preso, com policiais estranhos que invadiram a minha casa, procurando armas. Eu negava, dizia que não tinha, mas eles reviraram tudo; tiraram até o Heliozinho do berço para ver se tinha arma no colchão… Eu perguntava chorando: mas por que ele está preso? Eles falavam: ele é subversivo e está indo para o Rio de Janeiro. Procuraram no quintal todo, perguntaram aos empregados e, por fim, o conduziram para o Rio”, conta Leda emocionada ainda hoje.
Este foi um dos reflexos da repressão que recaiu sobre o país. Saquarema, um bucólico município na costa leste do Rio de Janeiro, também caiu nas redes do regime militar, havendo perseguição de jovens militantes políticos, acusados de “subversivos” e até “comunistas”. É preciso resgatar esses depoimentos, para que não se apaguem da memória coletiva dos saquaremenses. E para que não se repitam, na história do Brasil.

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Sobre o autor

Dulce Tupy é editora do jornal O Saquá e da Tupy Comunicações.