Trinta anos após as Diretas Já, surgem os novos desafios

Opinião - Silênio Vignoli

Um milhão de pessoas no Comício da Candelária pelas Diretas Já, no dia 10 de abril de 1984, deixou bem claro que o regime militar não dominava mais as ruas. No palanque, entre lideranças políticas do porte de Ulysses, Covas, Montoro, Arraes, Brizola, Fernando Henrique e Lula, brilhavam também atores, atrizes e cantores como Fafá de Belém, que cantava à capela o Hino Nacional Brasileiro. A atriz Christiane Torloni foi presença frequente nos 40 comícios realizados em todo o Brasil: “Nós íamos andando no meio das pessoas até o palanque, não tinha essa de irem os vips separados. Era como se fosse uma volta para casa, para a praça e para a rua que também haviam sido sequestrados. Era um resgate da cidadania, sem ufanismo”.

Muito solicitado no palanque do Comício da Candelária por eleições diretas, o historiador e cientista político José Murilo de Carvalho fez recentemente um paralelo inquietante com a manifestação que redundou na morte do repórter-cinegrafista da TV Bandeirantes, Santiago Andrade: “Lembro dos políticos que estavam à frente do movimento pelas Diretas Já. Havia confiança na liderança deles e na política como instrumento. Nas manifestações que começaram em junho de 2013 foi o oposto. Aconteceu de repente. Ninguém esperava e houve uma nítida rejeição aos políticos e à política. Significa que é preciso dar um passo à frente, reformar o sistema representativo que não está dando conta das necessidades. A juventude está perdida em relação ao sistema de representação atual”.

Já Christiane Torloni tem outro enfoque na comparação do movimento das Diretas Já com as manifestações de junho: “Não acho que junho aconteceu de repente. Acho que estava atrasado. É muito estranho que a Nação tenha ficado calada por tanto tempo. Quando começou era de novo aquela volta para casa… Mas aí surgiram os Black Blocs. Que gente é essa? São pessoas que gostam do Brasil? Se gostassem mostrariam suas caras. Confira nos palanques das Diretas Já se tem alguém de máscara? Era o contrário, a gente fazia questão de mostrar a cara para dizer: eu sou você, somos um só, é o espírito da Nação”.

A relação entre a república brasileira e seu povo é marcada por encontros e desencontros. Há 30 anos, vivenciamos um bela página. Os eventos recentes, muito complexos, ainda estamos tentando entender para expor o que se passa, a única maneira de começar a agir para prevenir tragédias, identificando os cabeças dessa facção Black Block e que financia. O morteiro fatal partiu dos mascarados. Não se pode perder essa oportunidade, até mesmo para homenagear Santiago Andrade. Grupos radicais buscavam um cadáver nas manifestações de rua. E conseguiram, com a ferocidade do vandalismo, atingir a própria democracia que, pelo menos aparentemente, tanto reclamam. Essa violência que ameaça os governantes acaba os ajudando, na medida em que influi para esvaziar as manifestações. Por que vou participar de passeatas arriscando minha vida?

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Sobre o autor

Silênio Vignoli é editor adjunto do jornal O Saquá.