Carlos Pronzato, o “hermano” que vai contar a saga do restaurante estudantil “Calabouço”

O advogado Paulo Gomes, produtor do vídeo “Calabouço”, e o cineasta Carlos Pronzato, diretor de documentários e fi lmes históricos (foto: Edimilson Soares)

O advogado Paulo Gomes, produtor do vídeo “Calabouço”, e o cineasta Carlos Pronzato, diretor de documentários e fi lmes históricos (foto: Edimilson Soares)

O restaurante “Calabouço”, no centro do Rio, era uma referência para os estudantes secundaristas que vinham do subúrbio carioca ou de outros estados, na maioria nordestinos, na esperança de prestar vestibular para uma faculdade, sonho que poucos alcançavam. Transferido de um local, onde funcionava há anos, para outro em piores condições, o “Calabouço” foi o cenário da morte do estudante Edson Luís, estopim das grandes passeatas, em 1968. Esta história agora vem à tona no documentário que está sendo feito pelo cineasta argentino-brasileiro Carlos Pronzato, com produção do advogado Paulo Gomes, do jornal digital Rede Democrática. Não é a primeira vez que o advogado brasileiro e o cineasta argentino se encontram. Ano passado, Carlos Pronzato, formado em artes cênicas na Universidade Federal da Bahia (UFBA), realizou o filme “Carlos Marighella – quem samba fica, quem não samba vai embora”, no qual Paulo Gomes dá um depoimento. Ex-militante da Ação Libertadora Nacional (ALN), liderada por Carlos Marighella, Paulo foi um dos fundadores do PDT, o partido de Leonel Brizola, surgido depois da Anistia. Casado com a professora Edna Calheiros, presidente da AMEAS, Associação de Mulheres Empreendedoras Acontecendo em Saquarema, Paulo mergulhou junto com Carlos  no resgate da luta política nos anos 60, para divulgar aos jovens de hoje uma parte da história que os livros didáticos teimam em esquecer.

 

O Saquá – Paulo, como vocês chegaram ao tema do “Calabouço”?

Paulo – Em março, faz 46 anos do assassinato do Edson Luiz, um símbolo da luta do movimento estudantil. O “Calabouço” era um restaurante de estudantes, que foi fechado pelo governo que o transferiu para um galpão inacabado, construído às pressas, sem piso, com uma comida de péssima qualidade, o que gerou protestos dos estudantes. Naquela época, todo o movimento estudantil estava em ascensão. Em um dos protestos no Calabouço, a Polícia Militar chegou atirando, com tropa de choque, e reagimos com pedras e paus. No conflito, foi assassinado de forma cruel o estudante Edson Luís, gerando um fato político que repercutiu em todo o Brasil. Nós pegamos o corpo dele, passamos pela Santa Casa para saber se estava realmente morto, o que foi constatado por 2 médicos. Depois, passamos em cortejo pelo consulado americano, onde também protestamos, e levamos o corpo para a Assembleia Legislativa, hoje Câmara de Vereadores do Rio, onde o corpo foi velado durante toda a noite. De manhã, já tinha aproximadamente 60 mil pessoas na Cinelândia. No final da tarde, levamos o corpo, em passeata, para o cemitério São João Batista, em Botafogo. Chegamos à noite. Durante o enterro, apagaram as luzes do bairro. Foi um terror!

 

O Saquá – Nesse período você já estava ligado à ALN?

Paulo – Eu me liguei à ALN no processo de fechamento do Calabouço. Meu irmão tinha participado de uma manifestação em 1966, onde perdeu uma das mãos, o que me marcou muito. Com a radicalização do movimento estudantil, em 1968, onde o Calabouço estava inserido, eu fui preso e condenado a 12 meses de prisão, cumpridos integralmente. Em outubro de 69, saí da prisão e encontrei a ALN. Mais tarde, eu entrei no PDT através do jornalista Neiva Moreira, quando o ajudei a fundar o partido no Maranhão. Depois voltei ao Rio, onde trabalhei como advogado contratado da Riotur. Hoje, estou no jornal online “Rede Democrática” e apoio movimentos sociais.

 

O Saquá – Como será o filme “Calabouço” que está sendo feito junto com o Carlos?

Paulo – O Calabouço foi uma fagulha do movimento estudantil. Vamos mostrar a história daquela época, através de depoimentos. Estamos entrevistando pessoas importantes como Elinor Brito, Edilberto Veras (Ceará), Geraldo Sardinha, um lutador que saiu do movimento estudantil e foi para o Uruguai, onde passou 4 anos na cadeia; jornalistas como o fotógrafo Evandro Teixeira; músicos como o cantor e compositor Sérgio Ricardo; advogados que apoiaram o movimento, professores e outros. Você sabe que têm aparecido muitos documentários sobre aquela época. Recentemente, participei da novela “Amor e Revolução”, do SBT, no capítulo sobre a ALN.

 

Argentino, brasileiro

e cidadão do mundo

 

O Saquá – Carlos, você tem uma trajetória diferente. Filho de artistas, pai músico e ator e mãe fotógrafa e artista plástica, estudou teatro na Argentina, viajou para o México, Guatemala, Colômbia, onde ficou 8 anos, Peru, Equador, Bolívia e fixou residência na Bahia, no Brasil.

Carlos – Sempre viajei. Desde 81 eu trabalho com cinema. Trabalhei no México, com alguns cineastas exilados da Argentina e de Honduras e a partir daí fiz muitas viagens, por vários países, sempre fazendo documentários. Hoje tenho 54 anos e estou morando no Rio.

 

O Saquá – Você fez um filme e um livro de poesia sobre o Che Guevara…

Carlos – Em 2003, na Bolívia, quando a população resistiu à privatização da água, fiz o filme “La Guerra del Agua”. Em 2005, voltei para filmar a posse do presidente Evo Morales. Fui por terra, subindo desde a Argentina, fazendo o mesmo caminho percorrido pelo Che, gravando depoimentos. Resultou no livro “Che, um poema guerrillero”, edição bilíngue lançada em 2007, na Bahia, e relançada em 2010, em São Paulo. Fiz também o filme/documentário “Carabina M2, uma arma americana – O Che na Bolívia”.

O Saquá – Você tem uma relação muito forte com a Bahia, não é?

Carlos – Sim, eu morei lá por quase 24 anos. Fiz muitos trabalhos na Bahia, inclusive sobre Canudos e Euclides da Cunha. Mas filmei também os estudantes que fizeram um protesto contra o aumento do preço das passagens dos ônibus em Salvador, em 2003. Esse filme está no You Tube; chama-se “A revolta do buzu”, que antecipou o surgimento do Movimento Passe Livre.

 

O Saquá – E o filme sobre os índios mapuches, no Chile, como foi?

Carlos – Eu morava na Bahia e uma companhia chilena me convidou para filmar a comunidade dos mapuches rurais. O filme foi mostrado inicialmente na Argentina, para a comunidade chilena. Escolhi fazer filmes resgatando a memória histórica porque o que é instantâneo está na mídia de massa.

 

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Sobre o autor

Dulce Tupy é editora do jornal O Saquá e da Tupy Comunicações.