Agora, de fato, é que se pode anunciar: “habemus Papa!” Silênio Vignoli

Opini„o - SilÍnio Vignoli

Por sua simpatia e comunicação com o público, circulando num carro popular, com vidros abertos, sorrindo, quebrando protocolos, cumprimentando fiéis e beijando criancinhas, o Papa Francisco virou uma unanimidade. Popular e carismático, Francisco tornou-se a grande estrela do memorável encontro com a maior população de católicos do planeta. Confessou-se, ele mesmo, um pecador, solidário com os erros dos outros, sempre repetindo o pedido para que rezassem por ele. O Papa falou para todos com sua palavra lúcida, serena, humana. Seus discursos numa linguagem bem simples e conotações quase infinitas, alcançaram todos os temas que fazem parte da vida dos seres humanos.

Na visita à Favela da Varginha, o Papa Francisco brincou ao dizer que “gostaria de ter tempo de entrar em cada casa para tomar um cafezinho, cachaça não”. Arrancou risos dos moradores já contagiados pelo carisma do argentino, que parecia ter assimilado rapidamente o famoso “jeitinho brasileiro.” A irreverência descontraída de Francisco não parou na cachaça e pegou uma carona no feijão, quando exortou todos à defesa da justiça social: “Sei bem que quando alguém com fome bate em vossas portas, recebe aquele jeitinho de compartilhar a comida, como diz o ditado, “sempre se pode botar mais água no feijão!” Em seu pronunciamento ao final da Via Sacra, encenada na Praia de Copacabana, o Papa Francisco, mais uma vez abordou o tema político-social e convocou a juventude a “não lavar as mãos”, questionando o público presente: “E você como é? Como Cirineu, como Pilatos, como Maria? Numa alusão aos personagens e cobrando uma ação oposta ao ato de “lavar as mãos” diante das injustiças. Pela primeira vez, o Bispo de Roma referiu-se diretamente, em público, ao comportamento de alguns religiosos que contribuem para afastar jovens da Igreja. E incentivou a Igreja a sair da sacristia ao encontro do povo na periferia. Francisco acrescentou que se colocar como “centro” é uma tentação que descaracteriza a Igreja, fazendo com que ela se transforme numa ONG. E recomendou que “os sacerdotes não devem ser ambiciosos, nem se deixarem impregnar pela psicologia de príncipes, mas, sim, preservarem o espírito da humildade.”

Ao apoiar as manifestações dos jovens nas ruas frisou que “eles foram às ruas para exigir uma civilização mais justa e fraterna.” Destacou que “uma sociedade futura mais justa não é sonho fantasioso, mas algo que podemos alcançar e os jovens devem ser os protagonistas dessa história, os construtores desse futuro, de um mundo melhor.” Se as mensagens do Papa foram assimiladas para serem adotadas não se pode garantir, mas esperar muito desses jovens tão conectados é inevitável. Eles não estavam na Jornada atrás de um cantor ou um ator célebres, mas de um líder religioso, representante de uma igreja, sim, cheia de problemas, mas que defende a fé, a ética, a esperança e a solidariedade. Um líder que prega um mundo não descartável, sem corrupção, sem consumismo, sem bens materiais e sem luxo.

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Sobre o autor

Silênio Vignoli é editor adjunto do jornal O Saquá.