A grande batalha da Confederação dos Tamoios foi em Saquarema

O Último Tamoyo, óleo sobre tela, de Rodolpho Amoêdo, retratando a morte do cacique Aimberê, atendido por um padre  jesuíta. A obra faz parte do acervo do Museu Nacional de Belas Artes

O Último Tamoyo, óleo sobre tela, de Rodolpho Amoêdo,
retratando a morte do cacique Aimberê, atendido por um padre
jesuíta. A obra faz parte do acervo do Museu Nacional de Belas Artes

Em abril comemora-se o Dia do Índio, mas poucos sabem que o maior episódio da resistência indígena no Brasil foi em Saquarema. A Confederação dos Tamoios ocorrida no início do processo de colonização do país, no século 16, foi um momento heroico da história dos nativos brasileiros, especialmente da nação Tupinambá, que ocupava grande parte do litoral, quando os portugueses aqui chegaram. O escritor e pesquisador Paulo Luiz Oliveira lançou o livro Tamoios, Senhores do Litoral, editado pela Tupy Comunicações, que revela aspectos até então encobertos, entre eles o fato de que possivelmente a batalha decisiva da Guerra dos Tamoios teria sido em Sampaio Corrêa, antigo Campo de Maranguá.

A Confederação dos Tamoios reuniu além dos Tupinambás, que eram a maioria, membros das tribos Goitacás, Camacuans, Carajás, Aimorés, Carijós e Guainás, contra os colonos portugueses. Nesta luta de morte, destacaram-se os caciques Cunhambebe, Pindobuçu, Coaquira, Jagoanharó, Arari, Parabuçu e Aimberê que era filho de Cairuçu, chefe da aldeia de Uruçumirim (Praia do Flamengo, no Rio de Janeiro). Segundo Paulo Luiz, Cairuçu morreu devido aos maus tratos decorrentes do trabalho escravo e Aimberê conseguiu autorização dos portugueses para realizar o ato fúnebre de seu pai. Assim começou a rebelião indígena, que resultou na morte de muitos portugueses e a fuga de vários índios. A Confederação dos Tamoios foi então a grande revolta dos primeiros habitantes da terra brasilis, sendo que Tamoios significa em tupi o que chegou primeiro, o mais antigo, o nativo.

Dezenas de aldeias indígenas foram visitadas pelo guerreiro Aimberê, com seu grito de guerra, que passou o comando militar para o cacique mais velho e mais temido pelos ”pêros”, como os índios chamavam os colonizadores portugueses: o cacique Cunhambebe, de Angra dos Reis, que tornou-se o chefe supremo. Em 1555, chegou à Bahia da Guanabara o francês Nicolas Villegagnon, que se instalou numa ilha onde estabeleceu uma feitoria: a França Antártica. A aliança entre os Tamoios e os franceses durou até 1567, quando os portugueses conseguem finalmente expulsar os franceses numa batalha sangrenta, onde matam Aimberê e sua esposa Iguaçu, que morrem juntos, lutando pela liberdade. Os corpos na Bahia de Guanabara foram resgatados pelo padre jesuíta José de Anchieta.

O cacique Cunhambebe foi o chefe supremo da Confederação dos Tamoios contra os portugueses

O cacique Cunhambebe foi o chefe supremo da Confederação dos Tamoios contra os portugueses

Em 1574 chega ao Rio de Janeiro o comandante militar Antônio Salema que forma um exército de mais de 1.000 homens, portugueses e índios catequizados. Decidido a exterminar todos os indígenas que habitavam o outro lado da Bahia da Guanabara até a Região dos Lagos, em setembro de 1575 Salema chega ao Campo de Maranguá, entre Sampaio Corrêa e Jaconé. Fortemente armados com espadas, lanças, arcabuzes e canhões, os portugueses massacram a aldeia indígena e levam como prisioneiros cerca de 500 guerreiros Tamoios amarrados e posteriormente decapitados nas areias da praia de Jaconé. Depois, o cruel Salema segue neste rastro de sangue até Arraial do Cabo, onde também dizima todos os indígenas, transformando a região, de Maricá a Macaé, num verdadeiro deserto humano. Somente em 1594, os padres da Ordem do Carmo se interessam por Ipitangas, onde constroem um convento dedicado a Santo Alberto.

Os Tamoios foram destruídos, mas até hoje permanecem os traços da cultura indígena na toponímia local, em nomes como Saquarema, que vem de “socó-rema”, que quer dizer bandos de socós, ave pernalta muito comum na lagoa. Também ficaram impregnados em nossa gente usos e costumes nativos e uma tradição alimentar como é o caso do beiju, feito de tapioca, que se chamava em tupi “ibeiju” e moqueca que vem de “moquém”, onde se assava o peixe em folha de bananeira, chamada “pokeka”. A tradicional sola, com coco ou amendoim, e as esteiras de tabua ainda são vendidas nas feiras. E os olhos castanhos, ligeiramente puxados como os asiáticos, os cabelos negros, lisos, e a pele morena demonstram que apesar de tudo resistem os traços desta cultura milenar dos povos tradicionais do Brasil.

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