Inflação põe Dilma num dilema político-eleitoral

Opini„o - SilÍnio Vignoli

A grande alta de preços dos alimentos levou o consumidor a comprar menos nos supermercados, segundo a Pesquisa Mensal do Comércio (PMC) feita pelo IBGE. O recuo foi de 1% em fevereiro em relação a janeiro e de 2,1% sobre 2012. Ficaram mais caros cebola, tomate, açaí, cenoura, feijão-carioca e batata-inglesa. Devido ao aumento do salário mínimo, o item empregado doméstico passou de 1,12% para 1,53% na maior contribuição para a composição do índice de inflação. Em 12 meses, o tomate subiu 122%. E o custo de vida furou o teto da meta do governo (6,5%) pela primeira vez desde novembro de 2011. Para os menos favorecidos, que ganham até 5 salários mínimos, esse percentual foi ainda maior: 7,22%. Em 66 municípios do antigo Estado do Rio de Janeiro, incluindo os da Região dos Lagos, a tarifa de energia elétrica da Ampla foi reajustada em 12,13% a partir de 15 de abril, apesar da tarifa reduzida pela presidente Dilma para conter a inflação. Parte desta redução está sendo neutralizada pelo intenso uso das termelétricas.

Os itens que mais caíram de preço, nos últimos 12 meses, tiveram este comportamento pela forte intervenção do governo: energia elétrica (-15,62%), automóvel usado (-8,16%) com automóvel novo (-3,22%). Os prefeitos das grandes cidades adiaram o aumento nas tarifas dos ônibus, atendendo ao apelo do ministro da fazenda, mas elas serão reajustadas em junho. O preço da gasolina e do diesel também ficou congelado por um bom período, causando enormes prejuízos à Petrobrás. Tudo isso comprova que a inflação não está restrita aos alimentos e seria bem maior se o governo não tivesse atuado intensamente para inibir esses itens.

À medida que o tempo passa e que o governo e PT anteciparam em um ano a campanha eleitoral de 2014, análises sobre cenários econômicos não podem deixar de levar em conta as urnas no ano que vem. Fica parecendo que o governo Dilma, a esta altura, não se lançará num combate à inflação com o vigor exigido. Quando Dilma, na África do Sul, defendeu a prioridade do crescimento sobre o controle da inflação, foi sintomático o presidente do Banco Central, Alexandre Tambini, tentar consertar a derrapagem da presidente, ao prever que, também em 2014, a inflação estará acima dos 5%. O governo Dilma está vivendo um grande dilema político-eleitoral: agir logo para cortar o fôlego da inflação e correr o risco de aumentar o arsenal da oposição, ou deixar como está e esperar o primeiro ano de um segundo mandato para fazer um ajuste com firmeza, a exemplo do que foi feito por Lula/Palocci. É nítido o desejo de conservar o mercado de trabalho aquecido, com desemprego pouco acima de 5%, considerado o principal motivo para os altos índices de popularidade da presidente Dilma.

A inflação é como se fosse um monstro que vai exibindo suas garras pouco a pouco, até que decola rapidamente. Pensando só no PIB e no crescimento, Dilma parece esquecer que há um preço elevado para pagarmos por esse tipo de comportamento.  A inflação está exigindo do governo mais e mais cuidados. É importante evitar explicações simplistas que subestimam o risco.

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Sobre o autor

Silênio Vignoli é editor adjunto do jornal O Saquá.