A brisa do mar é diferente

(à memória do Rubinho, músico e fundador do “Pedacinho do Céu”)

Ivan C. Proença*

Saquarema é conhecida como o espaço do surfe, praias de mar limpo, pôr-do-sol, Lagoa, etc. Mas a tradição cultural popular em geral fica à margem, ainda que signifique identidade cultural, a exemplo dos sambaquis, das crenças e registros históricos de N. S. de Nazaré e Santo Antonio, do quilombo de  Bacaxá, do artesanato, da estrada de ferro e carros de boi, das Artes Plásticas, da fonte, das fazendas e usinas, da folia de Sampaio Correia, dos poetas e pregoeiros, dos índios Tamoios e seus mitos, e muito mais.

E cabe lembrar a música popular e o futebol de Saquarema e suas vocações. Os músicos e intérpretes sempre fizeram a alegria dos saquaremenses. Famílias inteiras de músicos, como a do patriarca Seu Pereira e seus filhos, a notável dupla Luís (voz e violão) e Geremias (voz e teclado), a cantora Nazaré, o Zezéca, o Caubi; a família de seu Cosme com ele próprio (cavaquinho), o Cosminho (pandeiro), o Almir (bateria); a família do saudoso Rubinho (voz e violão), a esposa e grande cantora D. Norma, o filho Tony (voz e guitarra), o Betinho (teclado) no Pedacinho do Céu de tantas e tantas lembranças em torno das noites dos bailes-serestas, aos sábados.  Lembrando, ainda, que Luís e Geremias também fazem a música ao vivo  (acompanhados por Marcelo, batéra e Cézar, baixo), conjunto Los Castelhanos, do belíssimo Hotel Serra Castelhana, fazenda-de-verdade, hoje atração turística da região, cujo proprietário Edson (de saudosa lembrança) e o pai (o patriarca Seu Abelardo, e seu bandolim) sempre se ligaram à música popular brasileira, com bom-gosto e inspiração.

Ainda, o conjunto Protocolo do Reinaldo, que conta com uma jovem saxofonista, apresentando-se nos restaurantes da rede Bela Bel e em casas de festas.

No futebol, fatos curiosos. Vários jogadores de Saquarema poderiam estar jogando nos melhores times do Rio. Ao longo dos tempos, alguns foram testados e aprovados. Mas o inusitado: as saudades do município eram tantas, a ponto de desistirem e ou abandonarem inesperadamente a oportunidade, voltando para a Vila, Bacaxá, Rio de Areia, suas casas. Não raro veladamente.  E mais: alguns abdicaram de testes no Rio quando convidados, como aconteceu no nosso Bacaxá F.C., anos 70 e 80 do século passado, época em que havia os movimentados, alegres, domingos à tarde, do campeonato local, antes da profissionalização oficial Barreira-Boavista.  Eu trouxe os juvenis (hoje juniores) do Flu para jogar com o timaço do Bacaxá: empate. Por aí se tem uma ideia.

Com o meu cargo na Secretaria de Esportes no Maracanã, proporcionei à seleção de futebol (técnico Gilcélio) de Saquarema jogar ali a final de um campeonato estadual regional, contra o outro classificado, a seleção de Maricá. Vencemos por 4 a 1, inesquecível show, estádio com bom público, de nossos craques, na preliminar de um Botafogo ou Flamengo e América, se não me engano.  Como também Diretor de Cultura do Estado, mandei buscar conjuntos musicais de Saquarema — citados acima — para tocar nos consagrados Teatros Villa Lobos e João Caetano: sucesso absoluto; bem como representantes da Escola de Samba Unidos de Bacaxá, a bandinha de Santo Antonio, a Folia de Sampaio, apresentando-se nos jardins do SESC Tijuca. Sempre impressionando o público do Rio de Janeiro, com talento e criatividade.

Berço de interesse e múltipla cultura popular, íntima afinidade com as áreas de Educação, Cultura, Ecologia e Turismo, Saquarema se projeta como um dos municípios mais significativos do Estado do Rio de Janeiro.  No passado, índios e socós foram os primeiros a conviver com o chão e o mar saquaremense.  Hoje somos nós, com a obrigação de não deixar cair no anonimato e ou no esquecimento toda essa exuberante cultura do povo saquaremense.

* I.C.P. é professor, mestre e doutor em Literatura. Ensaísta. Crítico Literário.

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Sobre o autor

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