O filósofo Plutarco já distinguia o verdadeiro amigo do bajulador

Editorial - Dulce Tupy

O livro “Da maneira de distinguir o bajulador do amigo”, escrito por Plutarco, um dos maiores filósofos do Império Romano, poderia ter sido redigido hoje, por sua atualidade e porque o tema é universal e ultrapassa todos os tempos e fronteiras. Escrito na Antiguidade, em torno do Ano 100 depois de Cristo, o texto filosófico vai fundo no conceito da bajulação que promove a ilusão de amizade. Bajulação é uma forma de agradar para subjugar, define Plutarco. E onde há poder e poderosos, sempre haverá um ou mais bajuladores, que representam, com sua astúcia dissimulada, enorme perigo para os que ficam cegos com os seus elogios e sua prática nefasta.

O bajulador ganha, assim, pouco a pouco, a estima e a admiração da vítima e se comporta socialmente como um camaleão, ora prestativo e adulador, ora guerreiro e grosseirão, ora efeminado e estrategista, com uma sedução sem limites! É mestre na arte de agradar e se instala no gabinete mágico das vaidades e dos prestígios. O bajulador é uma espécie de ocultista astuto, com o encanto irresistível e agressivo dos mágicos. A bajulação, portanto, é uma coirmã da arte do teatro. No fundo, o bajulador é um velhaco; servidor das vaidades, serviçal de cabeça fria e ator principal da comédia da sedução. O bajulador sempre tem em mente algum engano proveitoso, um truque, uma carta na manga, uma fraude inédita. A bajulação é de fato uma perversão.

Com tantas artimanhas, torna-se difícil distinguir o amigo do bajulador. A bajulação vai mais longe que a amizade, em matéria de pequenas amabilidades. O verdadeiro bajulador parece sempre divertido e expansivo, não se opõe a nada, jamais contradiz, explica Plutarco. O bajulador é um parasita que tem sempre um elogio no bolso, para agradar e exercer seu ofício com habilidade, rodando em volta de seus bajulados… É difícil identificar os mais talentosos bajuladores, porque ocultam sua verdadeira face e se dedicam a ostentar o zelo, a diligência e a prontidão em atender os poderosos, que tornam-se suas presas fáceis. A artimanha do bajulador é derramar elogios, ao contrário dos amigos que dizem a verdade, se necessário for, mesmo que não agrade, mesmo que seja algo que não se queira ouvir.

Aqui em Saquarema, como em tantos lugares, há bajuladores onde menos se espera. Inclinados diante da riqueza e do poder, com sua devoção servil, o bajulador afasta os verdadeiros amigos e amigas de suas vítimas. Faz um cerco, para melhor exercer a sua dominação. Ridiculariza os que significam algum tipo de ameaça, para o seu domínio e seu raio de influência. Discriminam aqueles e aquelas que poderiam confrontar com o seu espaço, em palavras, atos ou ideias. Tentam esmagar seus adversários e impedem que suas vítimas vejam claramente o que se passa a sua volta, embriagadas com suas falsas promessas e miragens.

Uma piada sobre a bajulação é a do rei que vivia cercado de bajuladores e mandou fazer uma roupa nova. Quando o costureiro apresentou o novo figurino, o rei não gostou e mandou refazer a encomenda várias vezes, até que o costureiro, um bajulador, trouxe uma roupa que disse ao rei ser invisível. O rei vestiu e acreditou que estava lindamente trajado! Assim desfilou nu, diante da corte, aplaudido pelos bajuladores de plantão que teciam elogios à roupa que não existia, deixando o monarca num ridículo diante de seus súditos…

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Sobre o autor

Dulce Tupy é editora do jornal O Saquá e da Tupy Comunicações.