Cacatua com catapora e outros casos de polícia

Plant„o de PolÌcia - AG Marinho

Cacatua com catapora

Faltando quatro meses para o carnaval, Lourenço brecou todas as contas, prestações, compromissos e se preparou para exibir a fantasia dos seus sonhos. Só a peruca, nas cores salmon e berinjela, custou 1.800 reais. A tiara, atochada de balangandãs e pedrarias, era o luxo da viadagem carnavalesca e valeu o preço das quatro prestações da casa que deixou de pagar. Do peito, coberto com um arranjo de penas de ciririca da floresta, cor de carambola, descia um emaranhado de plumas que entrava pela lasca da bunda e se esparramava no V do rego num enorme chuveiro de penas de faisão dourado. As botas de cano longo, dos dedões dos pés até os joelhos, foram forradas com penugens de rabo de ganso e de pescoço de galo, salpicadas com paetês negros e cristais de lantejoulas.

Tudo pronto, estava orgulhoso com a sua fantasia de cacatua com catapora, mesmo sabendo que os cheques pré-voavam sem fundos pelas lojas e supermercados e os cobradores congestionavam a linha telefônica com ameaças. Já fantasiado, com um prestobarba dava os retoques finais nos cabelos do rego para maquiar as bochechas da bunda, quando recebeu a notícia de que o Bloco das Piranhas não ia desfilar. Irado aprontou um salseiro na rua, porta da frente e dentro de casa. Quando as filhas, a esposa e os vizinhos tentaram contornar a situação, deu um faniquito, misturou tudo, fez uma salada de palavrões e um ensopado de cacete e saiu distribuindo em quem chegasse perto. Na confusão, salpicou a cara do irmão de porrada. Na delegacia, quando lhe foi perguntado a razão pela qual estava com a bunda cheia de espuma de barbear, berrou enfurecido e esganiçado: “e onde é que já se viu uma cacatua com o rabo cabeludo?”

Sururu no acampamento

As praias, invadidas pelos barraqueiros, viraram um acampamento durante o carnaval. Numa grande concentração de conhecidos, parentes e amigos, que chegaram em um caminhão baú de mudança, onde transportaram e descarregaram, em carrinhos de supermercados, tralhas, roupas, fogões, lonas, panelas e crianças. A primeira providência foi pregar uma placa com os seguintes dizeres: “CARNAVAL DOS SEM TETOS”. Na sequência saíram catando paus e bambus. Montaram as lonas, armaram os barracos e já começaram as brigas e confusões. A primeira, segundo a gritaria, começou porque alguém fofocou que “foi Xincha quem, de propósito, cagou na barraca de Quirinha” que com o pé atolado foi lavar na praia, tomou uma ondada nos peitos e quase morreu afogada. Zefa, que passou o carnaval jogando búzios e fazendo macumba, aprontou uma confusão porque “na hora de bater tabaque pro santo, tocaram um funk de putaria pra entidade”. Romualda aprontou um bate-boca porque lavou na praia e botou no varal pra secar, as fraldas dos seus filhos “que foram roubadas e usadas como papel higiênico para esses maconheiros limparem a bunda”. No segundo dia, o xingamento teve início logo que a sopa de tatuí com entulho, cozida no fogão de lenha, ficou pronta. Gerúncio e a mulher, os dois de porre de cachaça, furaram a fila. Alguém reclamou e tomou uma cusparada na cara. Em represália, o xerife do acampamento suspendeu a cota de rancho do casal. Os filhos não gostaram e jogaram um balde de areia dentro da panela. Um vizinho chamou a polícia. Os sem “sem tetos” negaram o fato, mas quando os soldados foram embora o pau comeu no acampamento.

Na quarta-feira, quando a empresa proprietária começou a retirar os banheiros químicos, o grupo tenteou impedir, bloqueando a passagem do caminhão e fazendo algazarra na rua. O grito de ordem era o seguinte “e nós vai cagá adonde”.

Pentelhos Rastafari

Para brincar o carnaval os dois amigos resolveram fazer uma dupla punk-funk-rock-sertaneja e, desvairados sem pudor, mergulharam no fandango da sacanagem. Para escrachar de vez, fumaram um cachimbão de uma erva chamânica do Baixo Xingu e se destabacaram na maior doideira sem limites. As fantasias, uma minimíssima sunga transparente e chapéu de palha. A de um, que tinha o corpo todo cabeludo, despencava uma pentelhada em cachos naturais de fazer inveja e estava penteada com tranças no estilo rastafari que terminavam com caramujos coloridos e guizos que tilintavam no balanço fricoteiro e no sacolejo dos pentelhos. A do outro, de um buraco bem no meio, butucava para fora e deixava a mostra um par de bojudos testículos rosados e graúdos: um pintado com a bandeira do Brasil e o outro com a do Flamengo. De vez em quando eles arriavam as peças até os joelhos e ficavam pelados “para ajeitar os adereços”.

A mulherada se esparramou no visual e não despregava o olho, fazendo turismo na volumosa paisagem apresentada pelos gatões. Os maridos, putos da vida, protestaram pela audácia dos saradões e queriam briga. A polícia veio, não gostou do que viu e decretou a interdição da dupla e das fantasias. O pessoal do bloco protestou favorável, mas os machões das calçadas declararam guerra. A porradaria começou, mas os dois, que eram bons de briga e estavam muito doidões de erva do Xingu, enfiaram os desafiantes no cacete. A polícia entrou na briga e respeitou a bandeira do Brasil, mas deixou a do flamengo cozida nos borrifos de spray de pimenta. Durante a confusão alguém palmeou e arrancou uma montoeira de tranças pentelhudas do rastafári. O arranca rabo terminou na delegacia.

Fiofó e perereca

No segundo dia de carnaval Armandinho chegou do trabalho e encontrou a mulher trepada no trio elétrico sambando praticamente pelada. O biquíni era tão curto que só tinha mesmo a etiqueta, o resto era fiofó e perereca mal raspada para quem quisesse ver. Quando o marido mandou o carro parar, subiu no trio e mandou a mulher descer, a galera protestou com um coro de “corno” e não deixou Ritinha abandonar o pódio de onde com o seu remelexo mantinha o bloco de estaca em pé, masturbava o bom humor e contagiava a satisfação da galera, especialmente dos que saíram de casa a fim de saborear uma muriçoca diferente nos dias de libertinagens e putarias carnavalescas. Mas Mandinho deu uma de Chico e Rei e tentando fazer valer a sua certidão de casamento botou a massangonga de fora, mandou todo mundo ir tomar e, sacudindo a tromba, gritou pra galera que quem quisesse tocar na sanfona de Ritinha que primeiro meter o bocão no seu trombone. O resto foi só sangue e porrada. A turma não perdoou o marido devastado pelas virilhas da esposa exposta ao público. De ter chegado exaurido do trabalho e ter sido eleito o rei momo dos cornos, além de ter que apresentar o seu bilau jururu e enrugado como símbolo de força e masculinidade.

Armando deu entrada no hospital com a cara em feitio de angu. Ensanguentado e com a boca parecendo um prato de sopa de entulho, não teve como relatar o fato para a polícia. Ritinha, que só vai ser intimada no mês que vem, continuou mostrando a perereca de cima do trio elétrico, enquanto o marido continua todo quebrado internado comendo papinha pelo canudinho.

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Sobre o autor

AG Marinho é jornalista e poeta. E-mail: siragom@gmail.com.