Traição e apunhalamento na maneira lulista de governar

Opinião - Silênio Vignoli

Os desmoralizantes casos de corrupção, uns após outros, nos corredores do poder instalado nesta república tupiniquim, comprovam não somente que o patrimonialismo permanece corroendo nossa democracia, mas também que vivemos, lamentavelmente, uma fase de desmonte dos valores da cidadania. A intensa partidarização, predominante nos critérios de nomeação daqueles que vão comandar a máquina do Estado, provoca um aparelhamento político em níveis tão profundos que poderá alcançar até o Supremo Tribunal Federal, pelo que se depreende da entrevista ao jornal Folha de S. Paulo concedida pelo ministro Luiz Fux, recentemente nomeado. Ele vem sendo acusado de traição e exposto ao risco de revanchismo. Tudo porque Luiz Fux teria prometido, ou pelo menos deixado subentendido, em encontros com figuras proeminentes do governo, com José Dirceu e o ex-presidente da Câmara, João Paulo Cunha, ambos já então réus do mensalão, que poderiam contar com o seu voto no julgamento do STF. Como Fux não entregou o que presumidamente prometera, pois acompanhou o voto do relator Joaquim Barbosa em praticamente todos os casos, teria passado a integrar o index petista.

Os escândalos do mensalão e da máfia dos pareceres, capitaneada por Rosemary Noronha, são exemplares não apenas pelos protagonistas, mas pela rapidez com que os assuntos de Estado são tratados. Não por acaso, o jeito petista de governar está na origem dos dois acontecimentos. Rosemary viajava na comitiva presidencial sempre que a primeira-dama, dona Marisa, não estava. Por isso, muitas pessoas a conheciam como a “namoradinha de Lula”. Com esse título, Rosemary nomeava e demitia como pistolão de primeiríssima linha, até para ministros e autoridades dos diversos escalões. Por ironia do destino, tanto no mensalão quanto no escândalo abortado pela Operação Porto Seguro, da Polícia Federal, repetem-se dois personagens: José Dirceu, “chefe da quadrilha” do mensalão e de quem Rosemary foi secretária no PT, antes de ir trabalhar ao lado de Lula, e o assíduo mensaleiro Waldemar Costa Neto (PR-SP), pilhado em negociações com o esquema. Já Marcos Valério, enquanto atendeu aos interesses espúrios do PT era considerado persona grata. Agora, que resolveu abrir o bico comprometendo os caciques, é tachado de delinquente e mentiroso.

Com demissão, a presidente Dilma passa a ideia de que não aceita corrupção, mas foi ela quem nomeou os envolvidos em escândalos no seu governo, sempre a pedido do desligado Lula, “traído” no mensalão e agora “apunhalado pelas costas” por Rose e protegidos. Em resposta às críticas e cobranças sobre os escândalos envolvendo integrantes do governo, intensificados após a realização da Operação Porto Seguro, o ministro da Secretaria Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, refutou a ideia de que hoje há mais corrupção na administração pública: “Agora as coisas não estão mais debaixo do tapete.” De repente, é porque levaram até o tapete. Já os doutos de privilegiada memória lembram que o Barão de Itararé, quando teve seu mandato de vereador pelo PCB, cassado em 1947, brincou: “Saio da vida pública para entrar na privada.” Hoje, há muitos políticos que ainda não distinguem a coisa publica da privada.

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Sobre o autor

Silênio Vignoli é editor adjunto do jornal O Saquá.